meia-noite

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

- essa é a parte que dizemos coisas bonitas um pro outro?
- eu acho que essa é a parte que nós temos esperança...
- ...de ter sol no carnaval? haha tim-tim, neném.

***

- hmm... shall we dance, doçura?
- com prazer, don juan. mas cadê a música?
- shhh, você realmente acha que somos os únicos dessa rua? ali, dois gnomos tocando um bolero.

de açúcar

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

aprende e continua aprendiz
ensina muito e reboca os maiores amigos
faz dança, cozinha, se balança na rede
e adormece em frente à bela vista

-que horas são? – perguntou distraidamente, espreguiçando-se.
havia adormecido com a mesma roupa do dia anterior, mas não se importava com isso. a preocupação era saber se havia cafeína ali.
cafeína, e um pouco de amor. para colher o dia.
para sustentar o peso de sua alma e de seus encantos, que transpareciam calmamente através de um par de olhos sonolentos.
“são de ressaca” – murmuraria entre os dentes algum machadiano amargurado.
“não; são janelas” – acertaria qualquer romântico empoeirado. se fossem de comer, teriam gosto de doce de padaria. suspiro. suspiravam.
quando passava, deixava atrás de si paz e cheiro de terra molhada-de-chuva-de-verão.
...esguia, de mãos e traços decididos. desleixadamente delicada, de riso largo e contagiante. crua.pura.
parece mais uma Flor cor de pôr-do-sol.
-meio-dia.
mas a resposta já não fazia sentido. ela voltava para os seus sonhos, sem pressa.

sobre clichês e/ou desamores

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

seus suspiros reverberavam nos quatro cômodos daquela casinha de vigas soltas, mais mal apertadas que a razão por estar ali, nua.
os corpos ajeitavam-se quase no fim de uma ruela, onde os sons ecoavam até chegar aos ouvidos ébrios de um pierrot atordoado. como pôde, amar essa prostituta? queria envolver suas mãos em volta daquele pescoço tão... tão doce. podia sentir seu perfume misturar-se em meio aos gemidos que aumentavam.
- Colombina!
- mas com que diabos... quem te chama, Colombina?
a moça virou o rosto para o lado, exibindo suas dores e pedindo à arlequim que fosse embora.
o moço, exibia sua frustração e abotoava as calças com resmungos. Colombina era uma vadia, mas ele também não entendia de fidelidade.
e a voz... invadia a moça por dentro e por fora.
- Colombina!
...o que provocou um acesso de choro.
- pierrot, pierrot!
o palhaço - o palhaço! correu para os braços daquela mulher, que ainda cheirava à homem. outro homem. outros beijos - e cobriu os cabelos de sua amada com os seus, jurando matar arlequim. todos eles.
- por que, Colombina, por quê? - E enrolou com força uma mecha de seus fios dourados num dos dedos, puxando com delicadeza e impaciência - ou com o que homens como ele chamam de raiva.
- não pergunte... pelos deuses, não me pergunte o que eu finjo não saber!
e enterrou o rosto, lavado de lágrimas e maquiagem barata, no peito de pierrot. sentiu o seu aroma doce, e o coração bater apressado. inevitavelmente, desejou o cheiro de suor e a respiração ofegante. mas não vindas daquele rapaz, tão limpo e tão longe da simplicidade asquerosa do sexo.
mais uma vez: distorções, dentes. raiva, receio. carne e pêlos.vaidade. gritos...murmures. com uma maçã na boca.
mas aquele homem, tão suave que chegava a ser ralo, trazia, em seu lugar, um coração.
- leve para outra, meu amor! jamais encardirei o que tem de tão precioso... não, não me toque pois sou filha do pecado! Perfídia, esse seria um bom nome para mim. não soa como uma planta colorida, mas venenosa? – e aproximou-se do palhaço (do palhaço!), como uma serpente – Perfídia, meu querido... Perfídia...
insinuou beijar seus lábios, mas rapidamente caiu em descontrole. soluçava infantilmente.
- meu amor, meu amor! por que chora tanto? meu corpo, minhas lágrimas, meu coração...são seus! – sussurrou pierrot, em desespero e um quase contentamento. beijou cada centímetro de seu rosto. seus, são seus.. leve, leve...
- não seja patético, pierrot! Acerta-me no rosto e vai embora, porque sou uma puta. deixe-me escorrer pelos esgotos da volúpia!
mas hesitou logo em seguida:
-não; fique. eu vou. para sempre... adeus, mon amour.
... e saiu às pressas, escondendo o choro com as mãos.
salaud, salope, sussurrou o apaixonado, começando a gargalhar sarcasticamente; engolindo o resto de um vinho barato que achara na cabeceira daquela cama nojenta; decidindo também experimentar um pouco de luxúria. santé!

segunda-feira

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

-vai sem as meias?
-hum... tava esquecendo.
enfiou-as no bolso.
-tchau.
ela olhou para as unhas, ensaiando um bico.ele hesitou:
-não vai falar tchau?
-tchau.
-olha, é o que eu tenho pra te oferecer. se você quer uma chuva de confetes, de páginas do kama sutra, de café-da-manhã na cama, de serenatas e de exageros; de falta de limites, relógios quebrados e imaginação, procura em outra pessoa. ou em algum livro da danielle steel. ou do harold hobbins, do diabo. porra!
-ahm. joga aquela lixa que tá ali na mesinha pra mim? tchau.

agora.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

que se foda que tem tudo pra não dar certo. quero você, e me foder. me foder, me foder. com você. apostar tudo, ficar na fossa depois e fumar todos os marlboros do mundo, encher o rabo de conhaque barato do boteco engordurado, e depois jantar três folhas de alface por causa da fitness. arrebentar a boca, intoxicação por esmalte. chorar até ficar com a cara inchada e cor de lápis de olho, bater a cabeça na parede ouvindo wilco dizer em bemol como eu tomei no cu. e depois te procurar de novo. pela milésima vez, pedir perdão e dizer que vou com calma, pra depois te abocanhar sem nem mastigar, te engolir mais rápido que dose de pinga. casar, amanhã.cozinha xadrez. e depois me foder. de novo. sem você.fodida.


um só sempre é demais

pra seres como nós
sujeitos a jogar
as fichas todas de uma vez
sem temer, naufragar...

Óvulos

domingo, 26 de outubro de 2008

- Bom-dia, esposinhaaa!
- Bom-dia uma ova, Paulo. O almoço já tá quase pronto.
- Humm... minha esposinha cozinhando hoje, que delícia! Até que foi uma boa idéia dar folga pra Lurdinha aos sábados, né? Que cheiro bom, esp...
- Ah, pára de me chamar de esposinha! Que frescura é essa agora? Já são onze da manhã e já é quase novembro; natal tai e esse apartamento continua sem pintar! Olha só, essa janela descascando. E o senhor, só porque é sábado acha que pode acordar tarde assim. Tá vendo aquela batedeira ali? Quebrou hoje, a filha da puta... E falando nisso, sua mãe já tirou da cabeça aquela idéia da gente comprar uma casa com edícula no fundo pra ela morar lá, né? Pelo amor de deus, Paulo.
- Deus, ó Deus pai tão bom, do marido tão sereno... me diz, me diz porque a TPM existe! Amanda, meu doce... Mamãe disse no mesmo dia que ela tinha vontade de posar nua. Ela também não deve ter falado sério sobre a edícula. Agora vamos ver o que eu posso fazer com nossa querida batedeira.
- E desde quando você sabe consertar batedeira?
- Mas...mas... você não berr...digo, pediu pra que eu tentasse consertar?
- Hum. Mas vou querer uma nova se você quebrar essa de vez, hein.
- Tudo o que você quiser, tchutchuquinha. Docinho. Fofura.
- Mas você não percebeu ainda que eu não to pra graça hoje? Vai rapaz, tira essa mão daí senão vai tomar colherzada de pau na cabeça. Ai, Paulo... Nossa, agora não. Ai, ai... Não, pára...preciso mexer o molho.
- Toma, pra mulher mais bonita e encantadoramente brava desse prédio.
- Só do prédio?
- Do prédio, do bairro...
- É de coco, daqueles que eu gosto?
- Sim... da cidade, quiçá a mulher mais bonita desse mundo inteiro.
- Ah, amor! Assim eu fico encabulada... meu gatinho, meu pãozinho!




*
Há algum tempo, criei esse casal comum-pós-moderno-divertido-e-problemático-clichê. Bem, eles voltaram... e ganharam um marcador.

sobre a carne

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

o sol perdia suas escamas – não pela aproximação do final de um dia colorido, mas para a vigorosa energia que ela irradiava, indolentemente, deixando-o em intangível palidez.

aproveitava o silêncio para patinar no ritmo do acorde de um certo violonista, que lhe atiçou aquela malícia deliciosamente sutil. contornando a fonte em formato de ostra, lambia um sorvete de morango, deixando, de propósito, o creme cair em sua regata branca.

um acorde, dois acordes. virgínia, tingida de inocência, colocava os dedos da mão livre na boca, lambuzados e tingidos de azul. dilatava suas pupilas cristalinas num olhar virginal para o moço que atava suas pernas, cheio de desespero.

... que desesperadamente cantava uma música que acabara de compor para ela, em um tom simples e ingênuo; floreado de clichês e açúcar.

mas virgínia – que perdera a razão do nome há muito tempo – queria lascívia. estremecer de frente e por cima, agressiva e sem pudor; comer seu coração depois de gozar.

com passos de bailarina, disfarçava sua embriaguês, distribuindo timidez quando aceitou um alerta patético e receoso.

ao ouvi-lo, imediatamente ensaiou um deslize e, enquanto ele a ajudava se levantar, ela aproveitou para olhar com ingenuidade o meio de suas pernas tiritantes.

num quintal mal-iluminado, vírginia, triunfante, esparramou-se molhada pela chuva sob os pêlos e delírios de seu querido suicida; impregnada de loucura, e sustentada pelo seu vício


*florence, pra você.