- Fala, pequena!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Fala, porque é na pausa das palavras que uma alma toca a outra, entrelaçado de grãos de poeira e areia adentrando-se nos furos; fuga terrena.

Cala o delírio de fortaleza inabalável e esmorece, e desalinha, e corre que é tempo de se apequenar e entrar pelas fechaduras. Boca muda é receio de julgamento duro e divino, costuras estáticas e amargas, somos todos perecíveis e sensíveis, carentes e pequenos, fios de fagulhas que chegam até o céu e, por opção, decidem voltar. Roda sua valsa descompassada, menina, e sonha as entrelinhas que nosso alfabeto é incapaz de deitar nos papéis, porque somos todos jovens e tolos demais.

Pequenos e assustados, sem mais.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

- olha, me desculpa. Pelas certezas tão fugazes quanto às noites em que afogo meus cabelos no copo, e depois me preocupo com laquê, pomada, cremes, e lambuzo os lábios no espelho dizendo meu bem, não fique assim, não eu sei que não é nada eu te conheço há anos e já não deveria mais fazer isso com você mas faço então desculpa, olha, borrei todo o delineador, por que você não se levanta, toma um banho e esquece disso tudo? Mas eu já não adianto mais, eu-retrocesso, vou no meu passado à passos lentos e vou riscando todas as paredes com giz, não era pra ser assim não devia ter feito assim, e daí o quê? Daí que já foi, doçura, e eu vou fazer tudo de novo, de todos os jeitos que você puder imaginar, a mesma coisa. Sou a senhora das caras e bocas, das emoções insossas, dos corpos recicláveis mas não laváveis, e agora o quê? E agora um jato d’água que me empurra contra a parede, você realmente acha que eu calculo antes, que é por querer, que minha frieza é calculista? Valha-me o deus que você insiste em acreditar, na minha cabecinha macia feito carne maciamassada, eu tenho tudo aqui ó, lindo e idealizado. Segundo ato, posso te mostrar agora o segundo ato lindo e perfeito, im-pe-cá-vel do jeitinho que você sempre me quis, sóbria e saudável, de lágrimas secas e passo firme, sorriso simpático de manhã sonhei que todo mundo era feliz, bom dia, bom dia, sei fazer direitinho, não preciso ensaiar já vem treinado, quer ver? Aprendi lá fora. Então arreganha meus dentes pros seus amigos, olha como são brancos, sei discutir a mentira a partir do trompe l’oeil, sexualidade pra kinsey, freud e beauvouir, filosofia pra sócrates e pro bar, oi, quem foi rembrandt? Lembrandt, de mim chorosa e criança, mãe não quero ir, não mexe aqui porque pra mim nada é tão fácil assim, me deixa usar polainas em janeiro porque eu sinto um frio que não vem da rua? Me deixa fazer escândalo, espernear até quebrar todos os quadros, mastigar e cuspir livros e livros, dançar no teto com o aspirador de pó sem culpa nem pena nem dor nem remorso nem nada que me faça lembrar O TEMPO TODO que você está me olhando, que me aponta com unhas enormes como se quisesse me pôr na sétima casa, peão, amanhã já tá na oitava. Ai como eu quero, senhor, ir embora de tudo isso não você não pode ir ninguém pode nem eu posso, e agora? Talvez eu cultive um jardim, isso, flores bem coloridas, podem ter só 4 pétalas, pra não complicar, deixa eu chegar em casa sem ter de saber de você? Amanhã eu passo o café, deixo bilhete, não sei, compro brioche se não tem pão, te levo na cama e não reparo na sua bagunça, mas olha, me entende só um pouquinho que eu já me sinto à vontade pra ficar um pouco sozinha e acanhada, acordar triste em dia nublado, deixa meus dentes amarelarem, sem ter que lavar os cabelos com chá de camomila, pra dar dourado natural? Assim, pequena, confortável, talvez eu cultive tímidas violetas, que possam me encarar os olhos sem receio de desilusão, olha se eu fosse egocêntrica all the time eu não estaria te dizendo isso, entende? Eu me preocupo com você e não quero que você se preocupe tanto comigo em relação à você, ó, barquinho na enchorrada, dente-de-leão se esvaindo na brisa, hoje eu não volto pro jantar, vou comer lá fora porque eu nunca te disse mas eu não acredito em revolução armada nem desalmada, vermelho escorrendo nos punhos eu deixo isso tudo pra lá meu papel eu faço diferente eu quero fazer de verdade, hoje eu vou comer fritura e voltar com o peito inflado, eu não sou igual a você nem o que você gostaria de ser existe em mim, eu nem sei aonde eu to indo, olha, me desculpa por tudo isso, de verdade, porque se você achou tudo isso foi o meu primeiro ato, sujo e supérfluo, e a culpa é minha que comecei a protagonizar sem papel, nem caneta.

 

ps:- obrigada pela caneta.

2011, (des)balanço geral

sábado, 31 de dezembro de 2011

Abacaxi arranhando a garganta, o ano que passa começa a fechar as suas portas, cutucando-me as costas: - e aí, e aí?

- Aí que em janeiro uma tirolesa astral nos arremessou para a profecia que se adiantava, e o vento não me deixou acender sequer um cigarro. E levava para longe minhas bonecas e pelúcias, cortando-me a face com a violência de um aborto, pelo preço de um ventre.

Ostento-o com as duas mãos em concha, desce suave e humilde a lágrima que levou mais de vinte anos pra brotar, e agora tenho uma espada, uma oração e palavras impossíveis de arremessar em prosa,

Em poesia,

Elas correm

Me fustigam

“- agora sabe, mulher!” – gritam em uníssono

Que grande é quem sabe que é pequeno

E como prova,

Se esvaem das mãos da poeta, inconsolável

Chão lavado de sal:

- Alice, a fechadura!

Em primeira pessoa, 2011, obrigada pelos golpes, seu louco. Quem esteve por perto, obrigada, seus loucos, por me ajudarem a enxugar a prosa e aprender um pouco de poesia. Pra quem seguiu trilha diferente, obrigada - e nos encontramos na saída sem ressentimento, nem chorumelas. E eu vou vestir branco hoje, sim, senhor. E vermelho sangue, porque flui.

aquela sensação de…

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Sobressalto, cada passo dado com descuido é a explosão de uma cabeça minada.

Saudade, de quando era levada no colo e não pisava em nada.

Ciúme, de pipas, balões, algodão-doce, pipoca, sabiá

A beleza de não pesar...

e sem pesar,

não pisar.

sobre a toca da raposa

sábado, 29 de outubro de 2011

Longe da turbulência cotidiana, o estupor de uma noite abafada sentencia: restos da lembrança de um janeiro sem chuvas, ranço amanteigado de lágrimas que inflavam-me impiedosamente os rins. Acabrunha-se agora, tímido, o cinismo de novembro: a despedida da primavera, flores murchas e rancorosas que há meses teimam seu lugar, invejosas do suco que escorre dos pêssegos que passeiam pelas bocas febris, habitadas pelo insulto e pelo escárnio.

- Dr. Jekyll – chamo em desafio frente ao espelho – qual era a metáfora do monstro?

Exercício de escárnio, escolho novas correntes, tecidas delicadamente de rendas e tafetá, acolchoadas em meus pulsos inquietos e descompassados – cativos, expressão máxima da liberdade de aprisionar-se pelo preço da incerteza oracular. Corrida com os seios e o sexo expostos, extermínio da espera: escusa-me pai, mas o leite secou e não há lugar algum para voltar.

domingo, 16 de outubro de 2011

quê se escreve quando as palavras recuam em respeito à sinestesia de uma 

onda colorida, cores quentes e pacíficas

(oposição à fúria cotidiana,)

e emudecem,

e brotam nos olhos,

no aperto dos pulsos,

...o pertencer às paredes do mundo,

lesmas no muro;

aceitar em gargalhada

a tradição do inexplicável,

verter em lágrimas doces

sorver em paladar humilde,

o que os humanos fazem de melhor: .

.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

proposta de correr em fluxo, deparamo-nos com as pedras na corredeira.

curiosos demais para apenas pisá-las,

cheiramo-las,

lambemo-las,

monas,

musgo crescente nas entranhas

veneno letal,

pecado científico.