quinta-feira, 8 de outubro de 2015


Ontem deixei de me matar. Estou só com meus seios, minhas coxas, meu ventre. Rebento os instrumentos do meu cativeiro - a cadeira, a mesa, a cama. Destruo o campo de batalha que foi o meu lar. Escancaro as portas para que o vento possa entrar e o grito do mundo (H. Muller)


hoje é aniversário daquele dia em que você disse que ligaria o gás, e que teríamos de ficar segurando fósforos na boca como prova de amor. lembra? você, tirando toda a roupa, com o sangue escorrendo entre as pernas. gargalhando. e eu suplicando - não, não, por favor, não vamos enlouquecer assim tão rápido, vamos voltar pra cama.
e então você começou a gargalhar mais, dizendo - sério que você continua achando que meu corpo é um templo e o seu também? olha bem pra mim e me diga você acha que isso é sagrado? e então você cuspiu em mim. e eu ri também, dizendo que era isso mesmo, como pude ser tão otária, - ei você está perdendo o jogo, os fósforos escaparam da sua boca!
e aí também fez aniversário de quando você se agachou pra pegar os fósforos, e eu te agarrei por trás gargalhando e te chamando de gostosa. e aí escorregamos naquela sujeira toda que estava a cozinha, de sangue de álcool e de nem me lembro mais o quê, mas isso não é importante, o que me lembro mesmo era da gente escorregando lá, sem roupa nenhuma, como as crianças brincam no sabão quando a mãe lava a casa.
aí eu comecei a chorar, porque lembrei da minha mãe lavando a casa e se ela nos visse naquela situação agora ficaria muito, muito triste e até culpada afinal como ela pôde deixar que eu chegasse a esse ponto. aí você chorou também, porque disse que na sua família todo mundo já era bem insano quando você nasceu, e que uma vez até você tentou enfiar a navalha na coxa do seu tio, mas que só pegou de raspão.
aí aquele sangue todo em sua coxa fez um novo sentido em mim e você percebeu porque senão não teria começado a chorar também. e aí você se levantou e gritou bem alto MEU CORPO É UM TEMPLO SIM, e correu pela casa toda gritando que seu corpo era um templo sim e o meu também. e eu também me levantei, de um jeito muito sério e com uma dificuldade imensa pra respirar, e segurei suas bochechas com uma das minhas mãos. com a outra, cobri em concha sua vagina com muito cuidado e muito amor, e em tom muito solene disse: - vamos fechar a janela, porque tem um cara olhando a gente.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Em um desses finais de tarde, perguntei se ela gostaria de uma gaveta em meu guarda-roupas. Imediatamente, seu rosto mesclou-se ao céu alaranjado, faiscado de vermelho-sangue; pensei no quadro do David Munch quando um silvo de contentamento escapou de seus lábios. Um par de nuvens rosadas emerge da minha ansiedade, seguro em seus ombros e faço com que seus pés girem até a paisagem:
- Olha que céu lindo!
Ela pergunta se teria espaço, já que não há mais espaço sequer para minhas roupas; atropeladamente digo que não que há sempre espaço que já ia doar mesmo metade de tudo aquilo, que não precisava mais que poderíamos sim dividir que ela teria com certeza o espaço de que necessitasse, é claro, é claro, não há problema algum. A noite se aproxima em ritmo de bofetada, me atiro na cama e pergunto se ela acredita que as relações sempre podem se transformar; ela diz que não, e que talvez devêssemos ir embora e eu coloco os sapatos, digo que já estávamos nos atrasando mesmo. Ela ri, e diz que não era isso que queria dizer, ela diz que falava sobre a única solução, às vezes, ser a partida, porque algumas coisas acabam.
Eu olho pro guarda-roupas, olho pras seis gavetas e toco todo o peso da nossa história; da minha e da dela, da ciência, das artes, lembro que o mal do século é a depressão e que depressão nada é senão o nome que encontramos pra algo que sempre esteve ali escondido e esperando a hora de aparecer quando já estivéssemos confortáveis o suficiente pra sofrermos confortavelmente com cigarros, Caetano e poltronas e bebidas de boa qualidade, caio de novo na cama como se levasse dessa vez um soco, e falo que não, que há sempre um jeito, que sempre podemos transformar revolucionar porque isso e porque aquilo outro, que basta mudarmos algumas coisas e seremos outras pessoas, que não há problema algum, é claro, é claro que não devemos desistir de nada, desistência e troca é coisa de capitalista. Ela ri, e eu me lembro das nuvens róseas e digo que ela deve estar certa, de que talvez devêssemos assumir que no final de alguns caminhos fatalmente há o final e só; nem há encruzilhada porque não há outra escolha que não aceitar que algumas vezes, simplesmente, devemos agradecer e dizer adeus.
- Como é bom ter você em minha vida, meu amor!
E já desdigo no mesmo instante, digo não não, não foi isso o que eu quis dizer, olha aí de novo a relação capitalista não eu não te tenho, eu estou com você ok?
- O quê?
- Olha, é minha loucura chegando, esquece, esquece, eu quis dizer que não quero que haja entre a gente o que há com essas outras relações difíceis que criamos por aí e que agora queremos nos desvencilhar disso tudo, com a gente é diferente não é? Esquece, esquece, eu estou enlouquecendo mesmo, esquece o que eu disse, eu não te tenho eu só estou com você, foi isso o que eu quis dizer e nada mais.
- Você pode me ter enquanto eu estiver com você.
Sim, talvez pudesse ser isso, talvez seja isso, quando aparecer de novo O Grito a gente olha pro céu e vê as nuvens rosas, é isso que é o nosso amor?
- Eu estou com vontade de chorar. Não, não sei porquê; não, não deve ser a incerteza sobre os próximos meses, sobre o ano que vem, seria estúpido demais. Eu quero chorar, é só isso.
Talvez seja por isso que eu nunca consegui parar de fumar. Em peso, é como uma pequena vingança, é como se devolvesse ao mundo um pouco de mim, como se cuspisse em sua cara todos esses milhões de seres que me atravessam e que diariamente me desfazem. Em leveza, é uma carícia, uma forma de devolver ao ar todo o vazio que consigo assoprar, e levito. Acendi então mais um cigarro, e com a fumaça presa à garganta disse eu também, eu também quero chorar e não sei porquê, assoprei tudo aquilo ao mundo que nunca pára, e sorri, e pra mim tudo aquilo era amar, era amar demais. 

Fim de ano

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014



De minha infância, me corre sempre à memória o dia em que me encontrei com o tempo. Foi durante a leitura de um livro, em que descobri que poderia escolher quando seria o momento seguinte da história contada. des-cobri, e já havia passado o momento anterior: algo que nunca, de forma alguma, voltaria. linha adiante, e mais outro momento que se foi; quis agarrá-lo para sempre porque ainda que fizesse parte de uma tarde inócua e tediosa, eu considerava propriedade minha. na lembrança, a Emília, Marquesa de Rabicó: a vida é um pisca-pisca; nasce, cresce, e um dia pára de piscar. Há mais de quinze anos, descobri que o tempo não pára.
Desde então, passo pelo tempo e não o vejo, como se estivesse bêbada em uma enorme festa, e tento  reencontrá-lo, suspenso no ar -  ou suspenso no vácuo -, fugindo em um balão sem cor. em uma tentativa vã de agarrar-me a momentos, eu, suspensa no ar, identificada com minha personagem favorita, respiro.
Respirei.
Adulta, procuro aceitar que a tentativa de controlar o que se esconde entre uma página e outra é vã. e então a nostalgia nada é senão a dor de encarar, à duras penas, a mortalidade de uma existência que não se dá pelas palavras, mas entre suspiros e espasmos.  

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

- é engraçada a forma como jogamos a cabeça pra trás quando não queremos admitir um choro, como se engolir-as-lágrimas fosse um feito dos olhos, e não da garganta. e talvez seja isso mesmo: os olhos querendo des-ver o que a garganta já gritou, como se estivéssemos voltando atrás, olhos d'água espelhando uma realidade já lixada pela secura de palavras repetidas, repetidas...

Luis

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

   Luis, irmão do Zezinho - que era gay -, era operador de empilhadeira. Luis, com uma mão, tentava abrir um pacote de biscoitos empilhados enquanto, com a outra, segurava a barra de ferro do ônibus lotado. Mas Luis não conseguia, roía as unhas desde criança, e assim o plástico não cedia. Roía de medo, de ansiedade, de tédio. Roía quando estava uma pilha. Abriu. Um senhor, pele escura e marcada, chapéu surrado pra proteger um raio que possa vir a cair em sua cabeça, olhou para os biscoitos. Oferece, Luis!
   Oferece, você que tem vinte e poucos anos de olhos azuis e gentis, que deixou os cabelos encaracolados crescerem só um pouquinho, porque a família reclamou e o trabalho olhou; oferece com a mão direita, que é a que você leva uma aliança grossa de quem ama sua namorada, de quem vai casar assim que der entrada na casinha. Você que deixa ela trabalhar, que tem barriguinha de equilibrar os sobrinhos em pé, de quem  almoça na casa da vó aos domingos e pede a benção.
    O senhor aceita, agradece e comenta que não almoçou. Missão cumprida, Luis, você não quis ser coroinha, mas jamais deixou de ser um bom cristão. Toma a cervejinha só aos sábados com o sogro, porque ele insiste. Porque ela gosta de vê-los conversando. Luis fala das empilhadeiras, porque não sabe nada de futebol. Luis olhava para a estrada, enquanto colocava o último biscoito na boca, enquanto imaginava a casinha e as fotos do casório. Ao engolir, sentiu ânsia. Luis engolira ar, viu o lobo das estórias esvaziar os móveis da casinha; teve o ímpeto de abraça-lo e pedir socorro. Um baque forte, um clarão, e Luis vomitou. Reconheceram-no pelo crachá que carregava no peito, agora transpassado por uma barra de ferro. Bem a tempo, Luis! 

ao deus que for...

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

o pudor, correndo séculos a fio sobre corpos de incertezas, abafado quente, transparecido em um semblante frio e apático, gastrite ardente corroendo ovários doentes. censura, silêncio, lençol luz apagada, cócegas vestidas de inocência.
o medo da vulva, do calor de pernas que se encostam distraidamente, auto-boicote. renúncia do tato, febre fria, dor.
espia rápido por detrás da venda de cetim vermelho, explode em desassossego, cruza as pernas, aperta o sexo, a umidade da roupa denuncia. desconhecer o próprio corpo, vetar desejo na compulsão alimentar, fechar os ouvidos para os segredos da pele, até quando o rubor? até quando o pênis de uma feiúra repulsiva, o clitóris, amorfo, e o cu, palavrão? direito à tpm, sim, à masturbação, não. quê querem, senão gozar lamúrias?
suor, saliva e sêmen, liquidos, fluxos quentes e humanos - talvez seja aí onde reside a causa: negar o que é demasiado humano. (postado originalmente em junho de 2011)

domingo, 7 de julho de 2013

dia desses, comecei a ouvir um zunido insistente no meu ouvido e pensei que fosse a loucura chegando. comecei a procurar abelhas, moscas pela sala e não encontrei nada. também não era definitivamente a construção ao lado, então só poderia estar em mim. comecei a procurar as moscas e as abelhas no meu cabelo, e já tinha quase certeza de que aquela cena era a loucura que já havia chegado. então eu começaria assim, pela alucinação auditiva em um dia de semana. sem alucinógenos, desilusões ou algum trauma fatal, a minha loucura chegaria como uma visita inconveniente, um carteiro, uma tempestade de verão. sentei reta no sofá, e comecei a esperar pela primeira alucinação, por revelações, profecias, arranjos inteiros da mais pura música erudita, monstros com a voz dos meus familiares, o jim morrison. mas nada, nem formigamento. aí o zunido parou, e depois voltou. e depois, e depois, e depois e eu procurava incessantemente por insetos na minha cabeça, na minha roupa. aí eu comecei a pensar que aquele papo todo da minha mãe dizendo que eu era uma criança meio estranha tava fazendo sentido, de que a minha psicose era coisa de tempo. quando já estava me sentindo meio no direito de andar procurando insetos nos cabelos e falando o que eu quiser, senti um arrepio no pescoço, e era uma daquelas abelhinhas que grudam e fazem barulho. levei minha psicose latente pra janela, num misto de desapontamento e de alívio por ser só mais uma neurótica, pensando que, caso ficasse louca um dia, começaria por delírios de grandeza e de petulância.

domingo, 28 de abril de 2013

-sentada na patente, olhei para o ralo e notei que vários fios dos meus cabelos se agarravam pela sua tampa. "que nojo, será que é falta de vitamina, será que é sinal de preocupação, ser adulto é começar a perder uma das primeiras coisas que cresceram em você, como uma metáfora da inocência?"
mas, talvez seja apenas o topo da minha cabeça tomando a iniciativa de começar uma viagem por túneis escuros e esparsos.

redação

quarta-feira, 17 de abril de 2013

 

joãozinho era um menino diferente, sempre gostou de contar números e histórias, aí o marcão foi lá e disse você é um mané, seu cedê éfe, aí todo mundo riu porque tinha medo de apanhar se não achava graça, aí joãozinho achou que ser legal e ter amigos era passar lanche e lição de matemática todo dia, daí passava o intervalo na sala adiantando lição pra passar pros amigos enquanto todo mundo jogava bola.
um dia, não teve lição aí o joãozinho foi jogar bola mas só podia jogar goleiro, e o marcão que era bem forte deu com a bola de propósito bem na cara dele, que entortou o nariz. aí deve ser por isso que agora o joãozinho só usa o cabelo todo puxado na cara de lado, meio que pra esconder que ele só podia ser goleiro e fazer lição na hora do intervalo, acho que o joãozinho já nasceu meio assim, de lado. eu queria ser amigo dele, mas eu sento na frente.

 

todos já sabemos minimamente: estamos alienados, formatados, arruinados. eu-que-na-ruína-nado... mas um peixe nunca morre afogado.
no fundo dos corredores de corais, uma voz cínica boceja: -salve mundo metal!, à direita, o absurdo do senado; à esquerda, o escândalo da monocultura; corredor dos fundos, a relação entre a monogamia e a monocultura diante da heteronormatividade na contemporaneidade, em tecnologia 3-D; o ingresso é qualquer livro com a o adjetivo 'líquido' no nome da capa, afinal estamos num aquário, sejam rápidos, nosso aquário se autodestruirá em 24 horas! aguardem novidades após nossa próxima regeneração!

domingo, 30 de dezembro de 2012

"(...) Porque eu gosto do caos. Porque isso significa o desquite da realidade, da qual tenho pânico. Porque a vida fora da arte fica  insuportável. E é minha única chance de não ir para o hospício.”
Oswaldo Montenegro

 

essa noite sonhei que o Oswaldo Montenegro faria um show no ACAMPsi; enquanto ele se familiarizava com o local, havia muitos cânticos da Umbanda, e o que mais me chamou atenção foi o canto à Ogum, o orixá guerreiro. Após um tempo, o Oswaldo voltou cambaleante e sujo, como se tivesse tido um surto. Alguns se lamentaram, e um de nós disse algo parecido com "a arte dele precisa disso". Em seguida, uma conhecida disse à ele "você deve ter sofrido muito quando criança, né?" e eu a cutuquei, dizendo que não precisávamos desorganizá-lo agora.
fiquem à vontade para interpretá-lo como queiram, mas esse sonho foi minha retrospectiva 2012. a força, a arte, o cuidado, a coragem, a loucura, a sabedoria. palavras-chave, eu preciso de força e coragem, beirar à loucura, para defender a arte e o cuidado com o outro com sabedoria. em resumo, este ano me deixou uma mensagem de humildade, calma e esperança.acho que estas palavras se aproximam da concepção que tenho de Deus.
após incontáveis confrontos com copos e espelhos, copos espelhados em que procurava força quando já quase não acreditava mais em nada, descobri neste calor quente o quanto ainda há de ser aprendido por todos, em sua maioria crianças mesquinhas e petulantes. agradeço à Deus, então, que meus copos tenham sido sempre partilhados por pessoas maravilhosas, sejam estes copos simbólicos ou não - teria sido muito mais doloroso sem vocês.
hoje, no início de uma nova era e de uma carreira, pergunto o que ontem Nietzsche,  e que hoje uma grande mestre e amiga diz: "quanto de verdade você aguenta?"
Um sincero e choroso abraço nos amigos bêbados, idealistas, artistas, rabugentistas, culinaristas, todos grandes e bonitos... é sempre um prazer!

viadinho

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Zezinho queria um emprego, mas não queria ser cabeleireiro, só queria cortar o cabelo
Zezinho queria correr com os lobos, mas não tinha uma boceta
Então o Zezinho deixou a barba crescer pra ir ao mercado,e comprar uma margarina Qualy
mas como sua família não era igual à do outdoor,
Zezinho usou a margarina pra dar o cu.

As sutilezas da opressão

terça-feira, 16 de outubro de 2012

I

- o que você acha disso?
(o que eu acho disso? eu acho isso mesquinho, desimportante. acho que você foi egoísta o suficiente pra não perceber uma gotícula do que acontecia além do seu suor, acho que no mínimo você deveria encostar-se na parede do banheiro durante o banho e refletir sobre o quanto suas divagações rodam em círculos narcísicos e gosmentos, e procurar na sujeira do ralo alguma saída da situação.por outro lado, se te disser isso, você provavelmente me ameaçaria de alguma maneira que me faria sentir uma culpa terrível pelos próximos meses, e verteria todo o seu piche pra cima de mim, tornando o problema, além de meu também, insolucionável. mesmo conseguindo retirá-lo, ainda assim não seria capaz de te fazer lidar com a possibilidade de vocês mesma ter engendrado toda essa situação deplorável.)
- eu não sei, é difícil me pôr em seu lugar.
- eu não estou pedindo isso. só quero uma opinião. é tão difícil assim?!

leva, setembro

sábado, 1 de setembro de 2012

 

(me são inevitáveis as metonímias, por mais que o desejo seja de texto corrido, científico, enquadrado numa angústia com nome e razão - perdão, meu Pai, eu fugi da regra e não consigo manifestar meu desassossego sem correr por fora dela.)

o que esteve à-gosto do peso amorfo de nossas vidas, estacas fincadas numa busca inventada por nós mesmos.
caí na ação, reação automática; perdi as contas do meu terço, e levei nos bolsos o chumbo de dias curtos demais: eu não queria correr assim. agosto enchorrou meus pensamentos.
eu-plataforma-vibrátil, eu conectada a milhões de fios eletrocutáveis, eu ando sentindo demais o que vejo de não-respeitável (lê-se: do precoceito, da intolerância, daquilo que invade e estupra a ilha alheia) e a bile me vem à garganta.

evita a alegria,
vigia o sofrimento
sem culpa não há tormentos

qual a nudez que queremos exibir, ao final do inverno?

(porque burguês se dá ao direito de ser místico,
desde que escolha o mês.)

Do que dói, ou – Ora, Dr. Jekyll!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

 

As bifurcações doem. Túnel estreito e espinhoso, por onde nos esgueiramos ofegantes, procurando no final não o ouro, mas sim um vale encantado. Só pude encontrar desvios, escolhas, invariabilidade apenas de desencontro com antigos vínculos já pontiagudos, afundando impiedosamente na carne.

Máscara neutra, ou de couro molhado?

Pentear os cabelos com pentes de osso em frente ao espelho, ou a uma ripa de madeira? Engolir interditos, transpirar não-ditos, involuções que nos deixam com a sensação de um estupro que procura ventosas para seu gozo viscoso. Ventosas inúmeras, bifurcadas, enigmáticas, e aqui eu falo de vingança e transcendência. Em palavras polidas. E retraídas, tímidas, engolidas, cuspidas apenas algumas vogais tolas e sem linguagem. E não é sobre psicanálise, não é sobre códigos inapreensíveis. É sobre o estupor que me faz, mecânica, ranger entre dentes metálicos (im)possibilidades afetivas. É sobre plumas e tafetás escondendo a Crueldade que, de tão presa na gaiola, circula desajeitada e atrofiada por onde passa.

Finalmente, é sobre densidade.

poema manso, ou Brincar

sábado, 19 de maio de 2012

porque tem hora nessa vida,

que o que a gente mais quer é ficar quieto.

recuar nossos dicionários,

e usar as palavras mais simples,

assim, sem rima nem nada,

só pra disfarçar um pouquinho

esse desejo de calar.

 

         ***           

ficar assim, bem quietinho

embalado em mansidão,

amor de espreguiçadeira

sem caos, sem drama

sem perspectiva de fronteira

 

          ***

estourar chiclé

só pra rir da cara lambuzada

conversar no chão da sala

com a criança que já fui

sem pena, nem vergonha

e rindo à gargalhadas

porque quando a gente escreve assim,

se acha meio bobo,

perde as rimas caras, as metonímias,

as paranomásias;

mas dá de presente espaços e entrelinhas

de uma alma bem lavada.

terça-feira, 27 de março de 2012

- pelo menos os cães mijam nas árvores pra marcar seu lugar – disse ele, em escárnio – e com disso dizem a quê eles vêm. Mijo é mijo. E nós, que enfeitamos nossa escória com bolas e guirlandas murchas, que nada fazem senão insinuar nossa impotência com pequenos jorros precoces em ejaculações de calendário? Feliz Natal, querida, que eu ao menos quero ter o direito de escolher o mês do meu gozo.

- Porque abril é um mês que já começa mentiroso, não? Um brinde ao cheiro de urina seca: Feliz Natal.

- Fala, pequena!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Fala, porque é na pausa das palavras que uma alma toca a outra, entrelaçado de grãos de poeira e areia adentrando-se nos furos; fuga terrena.

Cala o delírio de fortaleza inabalável e esmorece, e desalinha, e corre que é tempo de se apequenar e entrar pelas fechaduras. Boca muda é receio de julgamento duro e divino, costuras estáticas e amargas, somos todos perecíveis e sensíveis, carentes e pequenos, fios de fagulhas que chegam até o céu e, por opção, decidem voltar. Roda sua valsa descompassada, menina, e sonha as entrelinhas que nosso alfabeto é incapaz de deitar nos papéis, porque somos todos jovens e tolos demais.

Pequenos e assustados, sem mais.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

- olha, me desculpa. Pelas certezas tão fugazes quanto às noites em que afogo meus cabelos no copo, e depois me preocupo com laquê, pomada, cremes, e lambuzo os lábios no espelho dizendo meu bem, não fique assim, não eu sei que não é nada eu te conheço há anos e já não deveria mais fazer isso com você mas faço então desculpa, olha, borrei todo o delineador, por que você não se levanta, toma um banho e esquece disso tudo? Mas eu já não adianto mais, eu-retrocesso, vou no meu passado à passos lentos e vou riscando todas as paredes com giz, não era pra ser assim não devia ter feito assim, e daí o quê? Daí que já foi, doçura, e eu vou fazer tudo de novo, de todos os jeitos que você puder imaginar, a mesma coisa. Sou a senhora das caras e bocas, das emoções insossas, dos corpos recicláveis mas não laváveis, e agora o quê? E agora um jato d’água que me empurra contra a parede, você realmente acha que eu calculo antes, que é por querer, que minha frieza é calculista? Valha-me o deus que você insiste em acreditar, na minha cabecinha macia feito carne maciamassada, eu tenho tudo aqui ó, lindo e idealizado. Segundo ato, posso te mostrar agora o segundo ato lindo e perfeito, im-pe-cá-vel do jeitinho que você sempre me quis, sóbria e saudável, de lágrimas secas e passo firme, sorriso simpático de manhã sonhei que todo mundo era feliz, bom dia, bom dia, sei fazer direitinho, não preciso ensaiar já vem treinado, quer ver? Aprendi lá fora. Então arreganha meus dentes pros seus amigos, olha como são brancos, sei discutir a mentira a partir do trompe l’oeil, sexualidade pra kinsey, freud e beauvouir, filosofia pra sócrates e pro bar, oi, quem foi rembrandt? Lembrandt, de mim chorosa e criança, mãe não quero ir, não mexe aqui porque pra mim nada é tão fácil assim, me deixa usar polainas em janeiro porque eu sinto um frio que não vem da rua? Me deixa fazer escândalo, espernear até quebrar todos os quadros, mastigar e cuspir livros e livros, dançar no teto com o aspirador de pó sem culpa nem pena nem dor nem remorso nem nada que me faça lembrar O TEMPO TODO que você está me olhando, que me aponta com unhas enormes como se quisesse me pôr na sétima casa, peão, amanhã já tá na oitava. Ai como eu quero, senhor, ir embora de tudo isso não você não pode ir ninguém pode nem eu posso, e agora? Talvez eu cultive um jardim, isso, flores bem coloridas, podem ter só 4 pétalas, pra não complicar, deixa eu chegar em casa sem ter de saber de você? Amanhã eu passo o café, deixo bilhete, não sei, compro brioche se não tem pão, te levo na cama e não reparo na sua bagunça, mas olha, me entende só um pouquinho que eu já me sinto à vontade pra ficar um pouco sozinha e acanhada, acordar triste em dia nublado, deixa meus dentes amarelarem, sem ter que lavar os cabelos com chá de camomila, pra dar dourado natural? Assim, pequena, confortável, talvez eu cultive tímidas violetas, que possam me encarar os olhos sem receio de desilusão, olha se eu fosse egocêntrica all the time eu não estaria te dizendo isso, entende? Eu me preocupo com você e não quero que você se preocupe tanto comigo em relação à você, ó, barquinho na enchorrada, dente-de-leão se esvaindo na brisa, hoje eu não volto pro jantar, vou comer lá fora porque eu nunca te disse mas eu não acredito em revolução armada nem desalmada, vermelho escorrendo nos punhos eu deixo isso tudo pra lá meu papel eu faço diferente eu quero fazer de verdade, hoje eu vou comer fritura e voltar com o peito inflado, eu não sou igual a você nem o que você gostaria de ser existe em mim, eu nem sei aonde eu to indo, olha, me desculpa por tudo isso, de verdade, porque se você achou tudo isso foi o meu primeiro ato, sujo e supérfluo, e a culpa é minha que comecei a protagonizar sem papel, nem caneta.

 

ps:- obrigada pela caneta.

2011, (des)balanço geral

sábado, 31 de dezembro de 2011

Abacaxi arranhando a garganta, o ano que passa começa a fechar as suas portas, cutucando-me as costas: - e aí, e aí?

- Aí que em janeiro uma tirolesa astral nos arremessou para a profecia que se adiantava, e o vento não me deixou acender sequer um cigarro. E levava para longe minhas bonecas e pelúcias, cortando-me a face com a violência de um aborto, pelo preço de um ventre.

Ostento-o com as duas mãos em concha, desce suave e humilde a lágrima que levou mais de vinte anos pra brotar, e agora tenho uma espada, uma oração e palavras impossíveis de arremessar em prosa,

Em poesia,

Elas correm

Me fustigam

“- agora sabe, mulher!” – gritam em uníssono

Que grande é quem sabe que é pequeno

E como prova,

Se esvaem das mãos da poeta, inconsolável

Chão lavado de sal:

- Alice, a fechadura!

Em primeira pessoa, 2011, obrigada pelos golpes, seu louco. Quem esteve por perto, obrigada, seus loucos, por me ajudarem a enxugar a prosa e aprender um pouco de poesia. Pra quem seguiu trilha diferente, obrigada - e nos encontramos na saída sem ressentimento, nem chorumelas. E eu vou vestir branco hoje, sim, senhor. E vermelho sangue, porque flui.