sobre o primeiro arranhão

sexta-feira, 12 de março de 2010

- gostou? - perguntou, enquanto enfrentava uma batalha interna contra sua euforia.
- então, não deu pra ler... eu comprei alguns livros durante as férias, e não deu tempo pra esses.depois você me empresta de novo.
- entendi. eu empresto, sim. bom, já vou... vou me atrasar pro almoço.
ganhou um "ok" e um beijo rápido, superficial, não entendia porque as pessoas encostam as bochechas nas suas e estalam os lábios para o ar, para cima, como se o alvo fosse um passarinho.
e correu. correu como nunca, levando quatro livros grossos na mochila quase infantil. estava tudo ali; nas entrelinhas, no cheiro, no marca-páginas. todas as palavras que nunca seriam capazes de sair de sua boca tímida e pateta. todos os seus sentimentos embotados e atropelados, desesperados.
o garoto mais bonito do colégio. e desdenhou os seus tesouros, e não a olhou nos olhos. sequer, ofereceu carona na garupa da bicicleta.
mas ela continuou correndo com o peso dos livros e o peso da dor; e caiu. tropeçou nos próprios pés. foi humilhante. trouxe para perto do corpo o joelho que sangrava, e chorou, e soluçou descabidamente: pelo joelho ralado, e pela melancia que só brota na garganta dos que se apaixonam pela primeira vez.

wishin' + hopin'

quinta-feira, 4 de março de 2010

coisa mais boba e ultrapassada, e não fujo disso. abandono aqui Narciso por um sonoro puta-que-o-pariu.
queer.
é tão patético, e tão inevitável. puta que o pariu. bom dia, impotência.
bom dia, masoquismo.

banalidades

domingo, 7 de fevereiro de 2010

- cara, eu tenho um sonho!
- olha só, hoje em dia isso é raro... me conta?
- eu reparto. é de creme, você gosta?
- mas...
- eu sei. é que amassou porque ficou na bolsa... te dou a parte com mais açúcar, tá?
- é que, ah...! tudo bem.
- olha, é o seguinte: o sonho é de padaria porque eu já não aguentava mais ter insônia. eu me apeguei ao concreto e agora eu durmo bem, economizo com livros ridículos de poetas virgens, e com cigarros. não é...
- ... triste. espera, o que é isso nos olhos? parece...
- ... maquiagem. já disse; concreto.
- pra mim isso tem outro signif...
- puta merda, eu posso, me diz, eu POS-SO tentar ter uma vida normal aqui?! você pode deixar de me assombrar, eu não quero ter que dizer que foi por... - e ela encheu sua boca com o doce, fechando espaço à qualquer verso rimado, abab, já prestes à denunciá-la.

sábado, 16 de janeiro de 2010

eu tentei. caralho, como eu tentei: análise, porre,saia-curta, espelho, nicotina. não é nada disso, nada disso você sabe que não, você sabe o nome porra não tem nada a ver com amor, olha no espelho, no espelho você não é louca, é vaidosa e não tem vergonha na cara; põe maquiagem, esconde com um pouco de blush o rubro que ainda te dá quando toca aquela música. tira esse som, pelo-amor-de-deus tira isso porque me dá vontade de chorar e hoje mesmo eu já descobri que ela é cantada pra outro alguém - tomara que suma -, me sinto um leão escaldado.
tentei, puta merda, eu conheço cada imperfeição sua melhor que sua mãe, tentei me convencer não-idealiza não-idealiza você também tem mau-hálito quando acorda. não dá. é feitiçaria, honey. galinha preta escondida embaixo do chão onde você me beijou, puxa me dá calafrios até hoje quando lembro e mordo o travesseiro porque sinto raiva, medalha de participação e qualquer um te teria, você é fácil e é como eu se deleita quando algo te soa a: um desafio. isso é insanidade, mas não tem chá de erva-doce, maracujá boldo verde que acabe com esse incômodo, cócegas embaixo do nariz. mas eu sou normal, normal, não preciso disso não leva a nada, isso vou escrever porque escrever eu gosto.
esquento a bunda na cadeira, hoje quero falar de algo que não dê pra salpicar com sua indecência mas não, de alguma forma você, cobra dissimulada, entra por baixo da porta e sobe, sobe se enrola no meu pescoço e... não posso fazer mais nada, não posso falar de partidos políticos, de cozinha, de ai-meu-deus-como-amo-os-passarinhos nem de profecias maias astecas incas platônicas. eu, lucidez, te odeio. me odeio, por isso. e também os passarinhos.

cordas-bambas, etc.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

sem demoras: 2009, labirinto de espelhos. O entrelaçado mágico e sádico, a enchorrada da revolta e as três migalhas de respostas...
... e, é por elas que os dentes quebrados, o conflito armado,
os olhos maliciosos, o pulmão já fraco, o coração obturado,
os lábios ressecados,
valeram cada minuto e,
em 2010,
darão um samba bem bonito.

sobre as reticências

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

e você se foi, lapso de lucidez. e nós fomos, apesar de ainda sermos.
porque quando se torna nítido que você sou eu,
e eu me encho de você,
talvez, se fôssemos,
o mundo se acab...
mas,
entretanto,
um minuto. um minuto dentro de sua retina é o bastante para afundar-me de novo, mar negro de caos
... e então somos nós novamente, no entrelaçado surrealista e masoquista de quatro pernas que, de perto,
são oito.

oito pernas que sustentariam um sonho de vento,
guardado cuidadosamente no clímax de um romance
que, vidro que é,
um toque e...
e você se foi, lapso de lucidez.

2

domingo, 11 de outubro de 2009

mas, repare - respondeu, jocosa, a borboleta - é tudo tão bonito quando se vê bem de perto!
e fitou o beija-flor nos olhos, de um jeito que o deixou zonzo.
-pois olhe você, pra esse infinito de cores e quedas...
o orvalho que goteja de manhã, a maquiagem amanhecida da bailarina, a alegria,
o ciúme, a ousadia. até a tristeza é bonita.
o rosto marcado pelas batalhas, os ombros insistentemente eretos, os olhos fundos beija-flor...
...de dor, beija-flor. eu trocaria,
um milhão de vezes mais,
o imortal por essa imperfeição que pulsa na simetria.
- você diz isso, querida, porque dá o fora antes da fonte secar.