leva, setembro

sábado, 1 de setembro de 2012

 

(me são inevitáveis as metonímias, por mais que o desejo seja de texto corrido, científico, enquadrado numa angústia com nome e razão - perdão, meu Pai, eu fugi da regra e não consigo manifestar meu desassossego sem correr por fora dela.)

o que esteve à-gosto do peso amorfo de nossas vidas, estacas fincadas numa busca inventada por nós mesmos.
caí na ação, reação automática; perdi as contas do meu terço, e levei nos bolsos o chumbo de dias curtos demais: eu não queria correr assim. agosto enchorrou meus pensamentos.
eu-plataforma-vibrátil, eu conectada a milhões de fios eletrocutáveis, eu ando sentindo demais o que vejo de não-respeitável (lê-se: do precoceito, da intolerância, daquilo que invade e estupra a ilha alheia) e a bile me vem à garganta.

evita a alegria,
vigia o sofrimento
sem culpa não há tormentos

qual a nudez que queremos exibir, ao final do inverno?

(porque burguês se dá ao direito de ser místico,
desde que escolha o mês.)

Do que dói, ou – Ora, Dr. Jekyll!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

 

As bifurcações doem. Túnel estreito e espinhoso, por onde nos esgueiramos ofegantes, procurando no final não o ouro, mas sim um vale encantado. Só pude encontrar desvios, escolhas, invariabilidade apenas de desencontro com antigos vínculos já pontiagudos, afundando impiedosamente na carne.

Máscara neutra, ou de couro molhado?

Pentear os cabelos com pentes de osso em frente ao espelho, ou a uma ripa de madeira? Engolir interditos, transpirar não-ditos, involuções que nos deixam com a sensação de um estupro que procura ventosas para seu gozo viscoso. Ventosas inúmeras, bifurcadas, enigmáticas, e aqui eu falo de vingança e transcendência. Em palavras polidas. E retraídas, tímidas, engolidas, cuspidas apenas algumas vogais tolas e sem linguagem. E não é sobre psicanálise, não é sobre códigos inapreensíveis. É sobre o estupor que me faz, mecânica, ranger entre dentes metálicos (im)possibilidades afetivas. É sobre plumas e tafetás escondendo a Crueldade que, de tão presa na gaiola, circula desajeitada e atrofiada por onde passa.

Finalmente, é sobre densidade.

poema manso, ou Brincar

sábado, 19 de maio de 2012

porque tem hora nessa vida,

que o que a gente mais quer é ficar quieto.

recuar nossos dicionários,

e usar as palavras mais simples,

assim, sem rima nem nada,

só pra disfarçar um pouquinho

esse desejo de calar.

 

         ***           

ficar assim, bem quietinho

embalado em mansidão,

amor de espreguiçadeira

sem caos, sem drama

sem perspectiva de fronteira

 

          ***

estourar chiclé

só pra rir da cara lambuzada

conversar no chão da sala

com a criança que já fui

sem pena, nem vergonha

e rindo à gargalhadas

porque quando a gente escreve assim,

se acha meio bobo,

perde as rimas caras, as metonímias,

as paranomásias;

mas dá de presente espaços e entrelinhas

de uma alma bem lavada.

terça-feira, 27 de março de 2012

- pelo menos os cães mijam nas árvores pra marcar seu lugar – disse ele, em escárnio – e com disso dizem a quê eles vêm. Mijo é mijo. E nós, que enfeitamos nossa escória com bolas e guirlandas murchas, que nada fazem senão insinuar nossa impotência com pequenos jorros precoces em ejaculações de calendário? Feliz Natal, querida, que eu ao menos quero ter o direito de escolher o mês do meu gozo.

- Porque abril é um mês que já começa mentiroso, não? Um brinde ao cheiro de urina seca: Feliz Natal.

- Fala, pequena!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Fala, porque é na pausa das palavras que uma alma toca a outra, entrelaçado de grãos de poeira e areia adentrando-se nos furos; fuga terrena.

Cala o delírio de fortaleza inabalável e esmorece, e desalinha, e corre que é tempo de se apequenar e entrar pelas fechaduras. Boca muda é receio de julgamento duro e divino, costuras estáticas e amargas, somos todos perecíveis e sensíveis, carentes e pequenos, fios de fagulhas que chegam até o céu e, por opção, decidem voltar. Roda sua valsa descompassada, menina, e sonha as entrelinhas que nosso alfabeto é incapaz de deitar nos papéis, porque somos todos jovens e tolos demais.

Pequenos e assustados, sem mais.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

- olha, me desculpa. Pelas certezas tão fugazes quanto às noites em que afogo meus cabelos no copo, e depois me preocupo com laquê, pomada, cremes, e lambuzo os lábios no espelho dizendo meu bem, não fique assim, não eu sei que não é nada eu te conheço há anos e já não deveria mais fazer isso com você mas faço então desculpa, olha, borrei todo o delineador, por que você não se levanta, toma um banho e esquece disso tudo? Mas eu já não adianto mais, eu-retrocesso, vou no meu passado à passos lentos e vou riscando todas as paredes com giz, não era pra ser assim não devia ter feito assim, e daí o quê? Daí que já foi, doçura, e eu vou fazer tudo de novo, de todos os jeitos que você puder imaginar, a mesma coisa. Sou a senhora das caras e bocas, das emoções insossas, dos corpos recicláveis mas não laváveis, e agora o quê? E agora um jato d’água que me empurra contra a parede, você realmente acha que eu calculo antes, que é por querer, que minha frieza é calculista? Valha-me o deus que você insiste em acreditar, na minha cabecinha macia feito carne maciamassada, eu tenho tudo aqui ó, lindo e idealizado. Segundo ato, posso te mostrar agora o segundo ato lindo e perfeito, im-pe-cá-vel do jeitinho que você sempre me quis, sóbria e saudável, de lágrimas secas e passo firme, sorriso simpático de manhã sonhei que todo mundo era feliz, bom dia, bom dia, sei fazer direitinho, não preciso ensaiar já vem treinado, quer ver? Aprendi lá fora. Então arreganha meus dentes pros seus amigos, olha como são brancos, sei discutir a mentira a partir do trompe l’oeil, sexualidade pra kinsey, freud e beauvouir, filosofia pra sócrates e pro bar, oi, quem foi rembrandt? Lembrandt, de mim chorosa e criança, mãe não quero ir, não mexe aqui porque pra mim nada é tão fácil assim, me deixa usar polainas em janeiro porque eu sinto um frio que não vem da rua? Me deixa fazer escândalo, espernear até quebrar todos os quadros, mastigar e cuspir livros e livros, dançar no teto com o aspirador de pó sem culpa nem pena nem dor nem remorso nem nada que me faça lembrar O TEMPO TODO que você está me olhando, que me aponta com unhas enormes como se quisesse me pôr na sétima casa, peão, amanhã já tá na oitava. Ai como eu quero, senhor, ir embora de tudo isso não você não pode ir ninguém pode nem eu posso, e agora? Talvez eu cultive um jardim, isso, flores bem coloridas, podem ter só 4 pétalas, pra não complicar, deixa eu chegar em casa sem ter de saber de você? Amanhã eu passo o café, deixo bilhete, não sei, compro brioche se não tem pão, te levo na cama e não reparo na sua bagunça, mas olha, me entende só um pouquinho que eu já me sinto à vontade pra ficar um pouco sozinha e acanhada, acordar triste em dia nublado, deixa meus dentes amarelarem, sem ter que lavar os cabelos com chá de camomila, pra dar dourado natural? Assim, pequena, confortável, talvez eu cultive tímidas violetas, que possam me encarar os olhos sem receio de desilusão, olha se eu fosse egocêntrica all the time eu não estaria te dizendo isso, entende? Eu me preocupo com você e não quero que você se preocupe tanto comigo em relação à você, ó, barquinho na enchorrada, dente-de-leão se esvaindo na brisa, hoje eu não volto pro jantar, vou comer lá fora porque eu nunca te disse mas eu não acredito em revolução armada nem desalmada, vermelho escorrendo nos punhos eu deixo isso tudo pra lá meu papel eu faço diferente eu quero fazer de verdade, hoje eu vou comer fritura e voltar com o peito inflado, eu não sou igual a você nem o que você gostaria de ser existe em mim, eu nem sei aonde eu to indo, olha, me desculpa por tudo isso, de verdade, porque se você achou tudo isso foi o meu primeiro ato, sujo e supérfluo, e a culpa é minha que comecei a protagonizar sem papel, nem caneta.

 

ps:- obrigada pela caneta.

2011, (des)balanço geral

sábado, 31 de dezembro de 2011

Abacaxi arranhando a garganta, o ano que passa começa a fechar as suas portas, cutucando-me as costas: - e aí, e aí?

- Aí que em janeiro uma tirolesa astral nos arremessou para a profecia que se adiantava, e o vento não me deixou acender sequer um cigarro. E levava para longe minhas bonecas e pelúcias, cortando-me a face com a violência de um aborto, pelo preço de um ventre.

Ostento-o com as duas mãos em concha, desce suave e humilde a lágrima que levou mais de vinte anos pra brotar, e agora tenho uma espada, uma oração e palavras impossíveis de arremessar em prosa,

Em poesia,

Elas correm

Me fustigam

“- agora sabe, mulher!” – gritam em uníssono

Que grande é quem sabe que é pequeno

E como prova,

Se esvaem das mãos da poeta, inconsolável

Chão lavado de sal:

- Alice, a fechadura!

Em primeira pessoa, 2011, obrigada pelos golpes, seu louco. Quem esteve por perto, obrigada, seus loucos, por me ajudarem a enxugar a prosa e aprender um pouco de poesia. Pra quem seguiu trilha diferente, obrigada - e nos encontramos na saída sem ressentimento, nem chorumelas. E eu vou vestir branco hoje, sim, senhor. E vermelho sangue, porque flui.