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domingo, 27 de setembro de 2009

mas, repare - disse o beija-flor - é tudo desconexo quando se vê bem de perto. um infinito de des-arranjos,
des-pedidas, des-medidas
des-tino... não faz - nem é - sentido.

vaidade e etc.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

peças ordenadas, um acordo. as brancas começam.
- peão quatro rei! - brada o oponente, arqueando a sobrancelha grisalha. um insulto.
the classic one. peão na frente do rei, promessa de um caminho longo e tranquilo. mas, já resmungava adão ao sucumbir à maçã oferecida pela amante, as aparências enganam. por trás de um terno bem cortado e um sorriso elegante, pode-se esconder tantas, tantas coisas. cartas dentro das mangas, camisa, meias... pra quem já sofreu tamanho espancamento ao defrontar-se com a sucessão dos lances, fica o antídoto:
- peão quatro bispo! - e as garras estão à mostra.
assim, com o oponente fisgado logo de início, não há mais sutilezas ou simulações. a batalha promete verter sangue e desonra - e os rodeios, flores e floreios recolhem-se do cenário, ruborizados.

...mas a história não termina por aqui: caso haja a queda de alguma possível máscara, um peão quatro bispo pode denunciar uma inexperiência patética.
cabe agora às brancas interpretarem o teatro, e depois as negras, e assim até as cortinas serem fechadas pelo perdedor - ou, recorrendo ao velho ditado dos enxadristas, por quem errar por último.

na sala de espera

quinta-feira, 16 de julho de 2009

humanos escrevem por milhares de razões. não têm necessariamente de ter algo a dizer.
muitas vezes, escrevi por puro egoísmo, mascarando minhas pretensões mais sujas por trás de personagens - marcadas sutilmente a ferro e fogo em suas ancas jovens.
hoje, silencio. por egoísmo, ou por não ter nada a dizer. no íntimo, sei que é porque voei alto demais, e agora me custa pousar em algo que me dê insônia, rubor ou motivo pra chorar. fiquei arisca (odeio pensar na idéia de substituir essa palavra por 'supérflua'), uma pena - e é na falta dessa que levo um lápis num bolso, e um ilícito noutro.

ela

domingo, 7 de junho de 2009

o ex-namorado, agora melhor amigo, depois de decidir compartilhar a mesma opção sexual, começava discretamente a dividir com ela seu hidratante corporal de morango com chantilly;
assim, seu gato rajado assustou-se e fugiu com uma gata altiva, mais vira-lata ainda, que evidentemente a desprezava. e, é claro que o chuveiro havia queimado - assim como o jantar, e uma porção de cartinhas mal-sentidas de uns amores meio covardes.
aí tinha o emprego, que se não era demissão, era demitida. e o síndico, que se não era tarado, era estrábico.
e havia o pedreiro, aquele gostoso.
e o carinha da biblioteca, que devia ser virgem até de mão na bunda.
- querida, me empresta aquele s...
- nem vem, bicha.
e acendeu o cigarro do amparo e do tédio, olhando o tal pedreirinho da janela e batendo distraidamente as cinzas, que caíam despreocupadas nos cabelos desarrumados de um magrelo qualquer que passava por ali.

eis o sangue:

quarta-feira, 22 de abril de 2009

vocês sabem - eu sei que todos vocês sabem - o que é a vontade de ser Atlas e sustentar o céu com a força dos braços. mas há duas diferenças que devem ser citadas aqui: nós nunca, jamais, conseguiremos sustentar o insustentável; e Atlas fazia desse seu destino. nós não conseguimos.
mas tentamos. trepamos no nosso ego e levantamos nossos braços - fracos e estúpidos. e, enquanto tentamos tirar força do inexistente, pensamos no amor. que é por amor.
mas é por egoísmo. eu. eu. eu. porque eu sou capaz de amar, porque meu amor fugiu.
mas ele não fugiu. por ironia do que costumo chamar de destino, ele está mais perto. podemos sentir que ele acabou de passar por ali. mas não precisa de você. mais uma vez: ele não fugiu; continuou sem você.
fluiu.
e, no auge da bestialidade, enfiamos nossa cabeça na água corrente, e tentamos sumir pelo ralo.
mas ficamos. definhando, remoendo, questionando. por quê, por quê? por quê não mais?
não queremos saber de resposta. nem saber a quantidade de bactérias que há na água parada e suja que nos tornamos. não temos coragem de escrever em primeira pessoa,assumir que a podridão é minha, e não nossa. o Eu fica de lado. esse problema é antropológico. preferimos jogar a culpa pro lado de fora.
você se foi; as cartas acertaram. os poetas acertaram: o pra sempre acaba.
mas eu sei - e meu coração e minha petulância sabem - que você continua aos tropeços, e tem medo de olhar pra trás. eles sabem que você procurou amparo no manipulável, e tenta enchê-lo de você.
e eu continuo aqui, olhando praquela foto que você tirou no dia que nos conhecemos e definhando, e remoendo, e questionando. a minha confusão, a sua perversão. e seus soluços contidos. e seus olhos que, quando os vi pela última vez, já não tinham aquele aroma adocicado, e que se apoderaram do quadro perfeito que tinha de sua última imagem.
E é aqui, vendo seus olhos sem brilho, que não sou mais eu, mas voltamos a ser nós. que insistimos em puxar os dois lados da corda, e que rezamos pro vazio que sobrou não nos engolir.

ali; parada.

domingo, 22 de março de 2009

-vou, sim.
-não vai, não. - e puxou seu braço com violência, fazendo-a cair desajeitada no meio-fio. suas lágrimas começaram, lentamente, a escorrer pelo asfalto gasto.
por ali, por dia, suportava e oferecia suporte à milhares de estupros, lamentações e, ocasionalmente, alegrias. uma placa entediada mostrava, há trinta e oito anos, que a via era única.
pela primeira vez, numa manhã de um dia que nunca mais se repetirá, uma senhora trocava de calçada, despreocupada.
um carro freou com pressa.
-olha a rua, dona!
olha a rua, dona... ali; parada. ali; suspirando...enquanto o sol se põe.

Valsinha

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Seis horas da tarde. O dia já começava a se despedir quando, pontualmente, ela ouviu o portão rangendo, desafinado. Empertigou-se toda para esperar seu marido chegar, limpando as mãos no avental gasto.
Suspirou, mas não sabia ao certo de quê. Amava aquele homem, mas este já não trazia amor, e sim alguns problemas do trabalho. Um olhar cansado, tão cansado... e um quilo de qualquer coisa para o jantar.
Mas algo quebrou as vidraças de suas rotinas. Uma bola de futebol dos meninos do bairro?
Um lindo maço de rosas cor de champanhe.
- Ué, vamos comer flores hoje? - Disse, sorrindo de um jeito que há muito não sorria, e perguntando-se sobre a importância daquela quinta-feira.
E ele apenas devolveu o sorriso, de um jeito que há muito ela não via. Tomou-a nos braços. Num abraço.
De seu avental desfez o laço.
A olhava com desejo; com ternura. E com aqueles olhos rápidos de criança com brinquedo novo, como no começo do namoro.
Nada disseram.
Convidou-a para dançar. Ela ronronou entusiasmada, e correu para o quarto.
Voltou dentro de seus vinte e dois anos, lilás. Delicada, até pouco abaixo dos joelhos e... soberba. Ignorou o aroma entristecido do tempo, borrifando a colônia que nunca deixou de usar. Ele quis despedaçar todas as rosas para fazer seu chão, mas apenas a tomou pela mão. E dançaram, suspiraram, rodaram. E gritaram.
E compreenderam.
Correram para a rua, ainda aos sussurros e rodopios. A noite, recém-chegada, parou de cair para não perder o espetáculo... as estrelas que tiveram tempo de chegar assistiam fascinadas, abraçando-se umas às outras. As janelas da vizinhança se abriram, e o casal de namorados, a viúva aborrecida, a menina-moça rebelde, o padeiro, os gatos da tia solteira, a tia solteira, o seminarista, os vagabundos e a meretriz compreenderam.
E amanheceram em paz.