sexta-feira, 3 de junho de 2011
eu, gato escaldado, volto a mergulhar em água fria: here we go again. questão de escolha ao nascer, se arder não vou nem assoprar.
eu, gato escaldado, volto a mergulhar em água fria: here we go again. questão de escolha ao nascer, se arder não vou nem assoprar.
Postado por carol às 21:37 2 comentários
- fico aqui pensando, esses devaneios de madrugada… quem seria a culpa, senão filha da mentira?
e a realidade, senão sobrecargo de fantasia?
Postado por carol às 20:56 1 comentários
ele é curioso, ela, inquieta.
- fico feliz por você ter entendido minha indireta.
eles, amigos há anos.
- foi uma indireta, mesmo? – inquieta, o cigarro chegando ao final, não sabia como correr; passou o dedo pelas bordas do copo.
caminharam até a casa de Sabrina, que já entendia dos perigos do silêncio. Falava sem parar: como vai o seu namoro?
- então, até mais.
- é, até...
- amanhã.
naquela noite, Lucas havia feito um convite. caso aceitasse, caberia a Sabrina ignorar muita coisa. e fechou o portão. instantaneamente, sentiu-se embalada não pelo excesso de álcool, mas por uma brisa leve de desejo. “leve” aqui poderia ser entendido de duas maneiras: leve, no que se refere a quase peso nenhum, tampouco importância; e leve, que se aproximava e então se soltava de qualquer tentativa de entendimento – e, por isso, se afastava desse vício de ter um cérebro, pairando, por que não? foi o que a fez parar e olhar o portão fechado, roer uma unha, por que não?
mas o carro de Lucas já se afastava.
***
Sabrina chegou em sua casa. bêbada demais para dormir, e bêbada demais para pensar; distrair, fingir que não era quase nada, era o que restava. ocasionalmente, o mundo das relações virtualmente estabelecidas, triviais, descomedidas, frígidas, se recusava a funcionar. Sabrina, a rede está fora do ar!
e Sabrina não conseguiu se distrair: “por quê não”?
- alo? Lucas... saideira? na minha casa.
nessa mesma noite, Sabrina aceitou, através de outro convite, o convite feito por Lucas – e agora também se responsabilizava pela lua cheia. então, Lucas voltou: em um outro lugar, através de um outro convite – e de outra troca de olhares. reformula-se: Lucas chegou.
em um beijo, milhares de anos de convenções, determinações e, principalmente, a sentença “tem que ser assim” se dissolveram. a leveza não tem-que nada; a leveza é, corre em sintonia, ignora verbos e metonímias. não há forma, nem fórmula; só os dentes apertando um lábio.
- a gente se devia isso há muito tempo, né?
dia seguinte, ela inquieta, ele, quieto. Os dois, com as duas mãos cheias de amores. eles, inquietos. e ele de saída para encontrar um deles, ela, acusando-o por roubar seu lugar ao lado de um dos seus. antes que saísse, Sabrina segredou em um guardanapo de papel, sem que Lucas pudesse ver: “ontem, quase de manhã, acordei no meio dos meus travesseiros. não fica assim, achando que foi por álcool e eu já me esqueci... eu abracei um deles, e adormeci sorrindo. “
(e, para ler, uma coisa assim simples, gostosa, divertida… cardigans, talvez…)
Postado por carol às 16:24 2 comentários
Só o acaso pode nos parecer uma mensagem. Aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e se repete cotidianamente é coisa muda apenas. Somente o acaso tem voz. Tenta-se ler no acaso como as ciganas lêem no fundo de uma xícara os desenhos deixados pela borra do café. (M. Kundera)
quê quer o acaso, violento, quando nos leva para a direção da qual fugimos? foice em punho, corto, arranco, mas sempre há uma raiz que se esconde e cresce forte e desafiadora, se enrola pelos meus pés, faz um laço na garganta; me deixa ver, me deixa ver, e as folhas, palmeiras, me tapam a visão, raio de luz ofuscando qualquer sentido, que, do mais, só é sentido. e só. ou o pó?, um espirro virulento, o estardalhaço desesperado a fim de negar a sina com afinco (cínico)? corre em desenfreio, a força da lua faz a maré voltar, alta, e nós não somos sem o pó que se evola em um grão de areia. dupla de seis em cada esquina, o relógio corre em círculos, lua cheia, o tempo gira, gira, um seis em cada esquina.
Postado por carol às 12:45 0 comentários
- Dá um descanso – ela me disse. Abre bem as cortinas do seu quarto, porque o sol voltou mais forte e a folhagem tá nova. Eu sei que você ama jabuticabas, mas é impossível encontra-las nessa época do ano – quer dizer, você até vai achar, mas sabe como serão, né, pequenininhas e azedas, você já não torceu o nariz demais?
Fico aqui pensando em crianças que estão deixando de engatinhar, quando a mãe só faz pôr os objetos que quebram mais no alto, do mais, assistem o tombo com um sorriso divertido: - só dá certo desse jeito, querido. E de quando mergulhei até o fundo da piscina pela primeira vez, pressão nos ouvidos, não dá pra ficar aqui por muito tempo. Coisas assim, porres necessários; a gente não entende a ressaca de ninguém até acordar tremendo, bile afora, vou morrer em doze horas, no máximo. E, por deus, como vale a pena. Porque fé a gente só tem depois de desacreditar de tudo e achar que é isso aí mesmo, a terra vai comer seus olhos. Hoje, meus olhos são de terra. Fértil, do entendimento de que é preciso estar sozinho pra entender que somos todos uma coisa só. A individualidade de cada grão da Farinha do mesmo saco, tem riqueza maior que essa?
Precisei me acovardar, ganhar olheiras, rugas e pés-de-galinha, gastrite e enxaqueca, só faltou a artrite, me fazer de velha anciã, pra ver com olhos de velha anciã o quão ridiculamente nova eu ainda sou, não é hora de aprender crochê e sentar na poltrona revendo a vida toda até a morte chegar. Minha pele estica, meu coração vomita e minhas ideias fervem a fogo alto; a gente usa gírias pra falar de investimento libidinal, tá ligado? Eu tô ligada, dando choque, pés na terra, plantei mais uma árvore depois de ler mais um livro; o check-up fica pro ano que vem, hoje a gente desafia em tom de onipotência, saúde não tem muito a ver com boa alimentação. Porque a gente come muita coisa além do que vai pro nosso estômago, e não tem doce de leite com pimentão, namoradinho, pipoca doce nem heroína que preenche a fome de estar vivo; fico aqui pensando em casmurros que se acham traídos, quando tudo o que fazem é trair a si mesmos, afastando qualquer Capitu de suas vistas amargas.
E hoje eu te digo: Fica tranquila, tá? Meus olhos estão inchados, meu dedos, amarelos, mas tudo o que eu disse veio dos nós que eu tiro da minha garganta. Meu coração também é italiano, é grande e forte como o seu, e também tem o resto do mundo, porque eu já entendi que sou humana, que acho bonito estar sabendo que sou humana, mortal e limitada. Então, só me faz mais um daqueles banhos de alecrim e arruda, porque, antes de mais nada, eu sou bisneta, neta e filha de amazona. Todo va a estar bien.
Postado por carol às 12:44 4 comentários
e aí a gente fica aqui, mordendo as beiradas da cama: aonde foi que encher o peito pra falar Eu virou audácia, e a ilusão veste as armas do (hipoteticamente existente) racional?
Postado por carol às 09:36 2 comentários
... continuando, eu já antevia essa hora chegar. A hora em que uma mão infantil te tira de fora do aquário, querido, põe de novo o peixinho aí dentro senão ele morre. Não, mãe, deixa ele ver onde ele vive de fora. E aí eu, peixe desafogado, me debato, por favor, me põe ali de novo, põe comida três vezes por dia, deixa eu achar que tá tudo no lugar porque o diâmetro é pequeno, o oxigênio dói nas narinas, se alastra pelas vísceras, meus irmãos não me dão nem bom dia, daqui de cima é tudo muito louco. Girino, peixe, borboleta que já tem asas mas ainda não sabe voar. Pelos deuses, me deixa ali mais um pouco, que história é essa de preconceito com dois L e Y?, tá tão frio e tá todo mundo dormindo ainda, são sete da manhã e eu to vendo gente com latinha na mão pra aguentar tudo isso porque papelão tá em falta. Quê desejo há de se sentar à mesa, quatro talheres diferentes, guardanapo no joelho e coluna ereta, sempre, às vezes, cotovelo não, nunca? Um, dois, três, sobe a infantaria de pulmão à postos, lobo mau, sopra o joio pra bem longe, deixa virar redemoinho de sujeira, porque a gente tem sabonete e carro na garagem. Então não me solta não, deixa a tua marca nas minhas asas, me mostra a cor das suas, segura bem forte na minha mão e mostra devagar porque eu já tô quase voltando a engatinhar, psicose nessas horas é luxo. E aí eu jogo as cartas, mão de coringas, é com você, é com você e o jogo nem dá sinal de acabar, desce mais uma cerveja e mastiga o relógio, tira a ideia de anjo da guarda da cabeça, porque eles já desistiram de prender Pandora, gargalhada alta reverberando nos quatro cantos da parede, E EU VOU FAZER O QUÊ, QUERIDA, TÔ É USANDO ROUPA SOCIAL, esfarelando em tempestade, segura que é um abismo e não tem volta.
Postado por carol às 15:23 2 comentários