Notas

domingo, 3 de abril de 2011

Domingos de chuva, convite pra olhar pra dentro. Me vem, insistente, o grande bordão materno, que sempre repito com uma gargalhada de quem crê na validade da sabedoria de quem não está até a garganta de clichés acadêmicos: “A rapadura é doce, mas não é mole”.

Foi o que me deu forças pra lançar um par de dados teto acima, e ir tomar um café antes de vê-los de volta ao chão, dupla de seis em cada esquina. Foi preciso lançar a cara no asfalto dessa distância, e lavá-la em álcool corrente, arder até as últimas consequências para, enfim, entender o que é a lacuna de uma vida em branco. O que é estar sujeito ao branco, e não confundir a falta de cor com o vazio; crer que a lenda dos monstros embaixo da cama e dos vampiros não é por acaso: há sempre uma bocarra aberta pronta pra te engolir com o arroto final da vaidade, seguida de um cenho de piedade, foi sem querer.

O caminho do bem é assumir a crueldade adormecida.

E não será hoje, nem amanhã, que assumiremos o que temos de mais sujo embaixo de nossas unhas. Cheirando a colônia, brincamos com os cachorros de rua por inveja : eles têm o direito de ter pulgas. Criança com piolho, pente fino; adultos que veem além do que é permitido, pente fino e indicador. O que me traz mais um bordão: quando você aponta pra alguém, há três dedos voltados contra você. Acreditar que o inferno é o outro conforta; não há imperfeição quando nos olhamos no espelho com a sombra do outro escurecendo um nariz adunco.

“Bem, não é o caminho do céu que nos leva através do inferno?”, refletiria Miller, fodendo sem preocupações. Não há bem, não há mal; o que existe é o maniqueísmo e a hipocrisia: a puta também é filha de alguém.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Eu a olhava egoísta, procurando me aquecer; só pude encontrar um vestígio de vermelho desbotado, escorregando nos seus cabelos agora compridos – interpretei-os: aceitação.

- Não aceita, não. Corta os cabelos, corta as raízes, você é aérea e linda e eu te espero. Rasga, manda à merda, rompe e grita. Me fala, ébria e melódica, que você prefere a poesia, que sexo às vezes é um porre, tira sarro disso; cita a Clarice com o cigarro em punho, se queimando descuidada e dizendo que vai começar sua autobiografia.

Quis gritar, chacoalha-la; boneca de pano com as costuras firmes, pude ouvir: - Tá tudo preso, atado, sete-chaves jugular abaixo, não mexe, não, por favor.

Um sorriso amarelado pelo tempo e pela apatia, me fez lembrar de que preciso comprar um novo vaso pra plantinha da sala voltar a crescer. Volta, flor.

Maria, sobre o que você quiser que seja

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Maria nunca me contou o que havia por trás daqueles olhos negros. Escuridão rochosa, tropeçava lenta em sua retina, encostando meu nariz no seu. ‘Diz pra mim’, eu pedia, e ela ria larga e melódica, ‘dizer o quê, meu bem?’, retornava, tocando meu rosto suave e calma. Voraz, pudesse eu retalha-la, encontrar ambrosia em suas entranhas. E logo já quis devorá-la, ela em mim, ela parte de mim, no sentido mais literal da sentença. Espinhos roçando em minha garganta, cuspi Maria e corri em desespero, feitiço contra o feiticeiro: Maria me retalhava.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

- tá faltando intensidade, você entende o que eu quero dizer com essa palavra? olha, é muito mais fácil gozar e chafurdar no imaginário; sofrer pelo que não existe e pedir com força, todas as noites, quando você vai cambaleando para a cama, bêbada e só, "aparece aparece aparece", quando o que você menos quer nessa vida é ter esse desejo realizado. porque aí você pode acender um cigarro assim que acordar ouvindo alto alguma coisa triste e em uma língua que você não entende, mas que tem certeza de que quem canta sofre por amor de verdade e gosta de martíni ou alguma outra coisa bem doce.você ri? é porque você não entende nada da arte de fingir que não é por prazer, cara.você já curtiu uma fossa, daquelas bem fodidas, quando tudo o que você quer é não ficar são e já lavar o rosto pela manhã pensando "o quê você tem afinal, filho da puta?". o grande cliché, angela rorô, vinícius, uísque barato mordendo os filtros do cigarro pra sentir mais forte e tossir com mais intensidade mais tarde, e depois levar pra rua, com um orgulho secreto, um par de olheiras enormes. é claro que você não concorda, mas você bem sabe o quanto sou egocêntrica e egoísta, então me deixa falar porque tá foda transformar em palavras bonitinhas pra alguém ler. continuando, daí o cara que você nem curtia tanto assim é apolo, é eros, júpiter e o caralho, e você está fodida para sempre. got it? intensidade. agora amor... falar de amor eu não me atrevo, me limito a: não existe pureza nenhuma, cara. amor-puro é mais mentiroso que 'altruísmo', no fundo é sempre a gente, vá lá, agora você tem que concordar. remonte a história do mundo, da sua família, sua, no fim de todo o melodrama é você e só. o que tem no meio disso, aí é outro papo, aí eu acho bonito, mas não me atrevo a falar porque, não ria, dá azar. mau-agouro, estraga. a gente define, descobre, quê acontece? acaba. você passa o verão montando um quebra cabeça, paisagem... sei lá, da Suíça. acabei, e agora? eu não sou de ficar parada olhando o que não anda mais. então, silêncio pra esse tipo de coisa.mas que falta intensidade, falta. ou não, também. acho que falando assim pra você eu começo a entender umas coisas, é, não vou ficar louca tão cedo, afinal. lembra que você me advertia disso desde o colegial? seu bobo, eu sempre fui a mais saudável de vocês todos, era sempre a segunda a vomitar - porque a primeira era sempre por descontrole, não por rendição. mas é difícil isso de coisa no lugar, né? quer saber? eu acho que é muita intensidade, e é por isso que eu to falando aqui sem parar e ainda tô insatisfeitíssima, eu quero dizer um turbilhão de coisas, queria encher uma calçada só com as letras que tento, tento e não consigo pôr pra fora, igual àquelas cidades pequenas naquele feriado, o corpus christi, você sabe? todo ano pergunto, e todo ano esqueço a resposta, do porquê daquelas ruas enfeitadas pra procissão passar. queria eu que uma procissão passasse em tudo isso que tá preso aqui na minha garganta, espera só, dois, três dias no máximo, amigdalite e febre, é terrível e dá vontade de pegar uma faca "corram, corram, façam um soneto, vagabundas", mas nada. você tá entendendo minha dor, cara? ou não tá fazendo sentido nenhum? bem, talvez eu não queria que você entenda, mesmo... porque aí perde a originalidade, eu acho mesmo que sofrer da alma é bonito, não estou sendo doentia, eu juro. mas é isso aí, não há juliana, joana, maria, theo nem nenhum personagem fictício que eu possa inventar agora e enfiá-lo numa tragédia, uau, de onde vem sua inspiração? não tá dando, cara, tá tudo muito cru. eu me sinto uma criança que não sabe montar os blocos, sabe, não sei fazer casinha, não sei fazer girafa, só sei pôr um em cima do outro e vai tudo tombar depois. olha, mas de uma coisa você tenha certeza: depois de tudo, eu mereci.

Como dizem, muito sol envelhece a pele

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

- Ó! Bonita, né? Vou pegar várias ondas nessas férias, gata.

- E desde quando você sabe surfar?

- Tem muitas coisas sobre mim que você não sabe, querida. Aprendi com um amigo da faculdade.

- Ah tá, quero só ver. A propósito, o Juninho quer ir com a gente pra praia...

- Hum.

- Quê foi?

- Ah!

- Desembuxa, qual é o problema?

- Amanda, o Juninho é uma criança... crianças não param um minuto, têm diarréia, querem testar o sorvete de todos os carrinh...

- O Juninho tem dezesseis anos, meu amor.

- Dezesseis?! E agora a gente tem que ficar levando sobrinho marmanjo em viagem?

- Tá com receio das menininhas olharem pra ele em vez de você, doce? O Ju tá ficando bonitão, hein...

- Engraçadona. Será que ele sabe surfar?

- Já participou de competição e tudo.

- Então ele não vai.

ressalvas

sábado, 18 de dezembro de 2010

- Então eu vou te dizer: foi egoísmo, do mais puro e do mais precioso. O porquê do sumiço, do silêncio e da sobriedade. Porque, simplesmente, eu não tenho (assim como, deliberadamente, não quero) nada a oferecer. Tem gente nesse mundo que só oferece porque quer receber de volta, e eu só não generalizo porque sei que você tem lá suas ideias marxistas ou idealistas, comunistas, e paro por aqui os adjetivos porque sarcasmo é maldição. Se já escrevi e vociferei na mesa do bar com fúria e revolta, se já produzi um milhão de páginas no meio de meio mar de vinho e de farinha, encarnei na ponta da caneta todas minhas dores, sinto, sinto lhe dizer... é o fim, rapaz, eu me sinto bem. Desconfundi o que todo aquele ímpeto juvenil confunde num entorpecimento sedutor, diria: a diferença, a ousadia, a mudança, a sensibilidade púrpura e definitiva no coração daqueles que não têm as próprias pernas como preocupação magistral... definitiva até que cheguem os 20, opacos e pesando em seus ossos como cem quilos de chumbo. Superei-os por muito tempo, você acompanhou e viu meu desespero frente ao primeiro grisalho, que significava acomodação e espera.
O que eu quero te dizer é que eu estou satisfeito e confortável; o mundo perdeu um trovador e ganhou, quem sab... quer saber? Ganhou um grande covarde, olha, eu sinto medo pra caralho, eu tenho uma casa um filho e um seguro, e é isso? Eu queria poder estar fodendo para as minhas pernas, olha pra você, rosado e com o mundo maior que os metros quadrados dessa chácara, eu te invejo, eu te invejo. A gente aprende a duvidar, duvida, daí finge que entende tudo pra não pôr a coisa toda de pernas pro ar. Dentro da gente, eu falo... a gente finge que entende, finge que aceita, finge que é inevitável e enche o peito pra falar de ordem e de respeito; finge que ama quando estamos desesperantemente sozinhos e famintos, disfarça alívio quando o dia é curto, e a próxima fase? A próxima fase é encher o peito pra desacreditar de tudo, assumir que fingiu sentido nas coisas e fingiu acreditar no amor, que fingiu sabedoria quando na verdade você se transformou num animalzinho bobo e assustado, eu não queria estar te dizendo isso agora, mas quero que você veja, veja o quanto estou sendo hipócrita e contraditório com todo esse discurso, isso não é lindo?
Não, não sinta e não diga que isso vai passar, olha aqui, eu acho lindo de verdade essa raça toda acreditando em mentiras a vida toda, sabe por quê? Porque enquanto a gente desfaz os enganos, e desfazemos mesmo, não ficamos céticos nem niilistas: eu vejo na ruga de muita gente uma coisa grande que não é espera, nem esperança e nem conformismo de quem já não se surpreende mais, eu vejo uma fé alegre e sincera, simples e cúmplice com o resto do mundo, pronto para desfazer qualquer tentativa vã de esmiuçar qualquer significado. É aí que meu discurso se perde para sempre, e se torna desnecessário, e é por isso que eu continuo a falar, pra você ver bem de perto que, perto da gente, gota no oceano e grão de areia carregam muito mais do que jamais poderemos adivinhar.

ode ao que não produz

sábado, 11 de dezembro de 2010

o desejo, quando muito, denota frigidez

... muito pensamento, rigidez.

quê dizer do excesso de sentimento,

que agora transborda nessa minha falta de talento?