cordas-bambas, etc.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

sem demoras: 2009, labirinto de espelhos. O entrelaçado mágico e sádico, a enchorrada da revolta e as três migalhas de respostas...
... e, é por elas que os dentes quebrados, o conflito armado,
os olhos maliciosos, o pulmão já fraco, o coração obturado,
os lábios ressecados,
valeram cada minuto e,
em 2010,
darão um samba bem bonito.

sobre as reticências

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

e você se foi, lapso de lucidez. e nós fomos, apesar de ainda sermos.
porque quando se torna nítido que você sou eu,
e eu me encho de você,
talvez, se fôssemos,
o mundo se acab...
mas,
entretanto,
um minuto. um minuto dentro de sua retina é o bastante para afundar-me de novo, mar negro de caos
... e então somos nós novamente, no entrelaçado surrealista e masoquista de quatro pernas que, de perto,
são oito.

oito pernas que sustentariam um sonho de vento,
guardado cuidadosamente no clímax de um romance
que, vidro que é,
um toque e...
e você se foi, lapso de lucidez.

2

domingo, 11 de outubro de 2009

mas, repare - respondeu, jocosa, a borboleta - é tudo tão bonito quando se vê bem de perto!
e fitou o beija-flor nos olhos, de um jeito que o deixou zonzo.
-pois olhe você, pra esse infinito de cores e quedas...
o orvalho que goteja de manhã, a maquiagem amanhecida da bailarina, a alegria,
o ciúme, a ousadia. até a tristeza é bonita.
o rosto marcado pelas batalhas, os ombros insistentemente eretos, os olhos fundos beija-flor...
...de dor, beija-flor. eu trocaria,
um milhão de vezes mais,
o imortal por essa imperfeição que pulsa na simetria.
- você diz isso, querida, porque dá o fora antes da fonte secar.

1

domingo, 27 de setembro de 2009

mas, repare - disse o beija-flor - é tudo desconexo quando se vê bem de perto. um infinito de des-arranjos,
des-pedidas, des-medidas
des-tino... não faz - nem é - sentido.

vaidade e etc.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

peças ordenadas, um acordo. as brancas começam.
- peão quatro rei! - brada o oponente, arqueando a sobrancelha grisalha. um insulto.
the classic one. peão na frente do rei, promessa de um caminho longo e tranquilo. mas, já resmungava adão ao sucumbir à maçã oferecida pela amante, as aparências enganam. por trás de um terno bem cortado e um sorriso elegante, pode-se esconder tantas, tantas coisas. cartas dentro das mangas, camisa, meias... pra quem já sofreu tamanho espancamento ao defrontar-se com a sucessão dos lances, fica o antídoto:
- peão quatro bispo! - e as garras estão à mostra.
assim, com o oponente fisgado logo de início, não há mais sutilezas ou simulações. a batalha promete verter sangue e desonra - e os rodeios, flores e floreios recolhem-se do cenário, ruborizados.

...mas a história não termina por aqui: caso haja a queda de alguma possível máscara, um peão quatro bispo pode denunciar uma inexperiência patética.
cabe agora às brancas interpretarem o teatro, e depois as negras, e assim até as cortinas serem fechadas pelo perdedor - ou, recorrendo ao velho ditado dos enxadristas, por quem errar por último.

na sala de espera

quinta-feira, 16 de julho de 2009

humanos escrevem por milhares de razões. não têm necessariamente de ter algo a dizer.
muitas vezes, escrevi por puro egoísmo, mascarando minhas pretensões mais sujas por trás de personagens - marcadas sutilmente a ferro e fogo em suas ancas jovens.
hoje, silencio. por egoísmo, ou por não ter nada a dizer. no íntimo, sei que é porque voei alto demais, e agora me custa pousar em algo que me dê insônia, rubor ou motivo pra chorar. fiquei arisca (odeio pensar na idéia de substituir essa palavra por 'supérflua'), uma pena - e é na falta dessa que levo um lápis num bolso, e um ilícito noutro.

ela

domingo, 7 de junho de 2009

o ex-namorado, agora melhor amigo, depois de decidir compartilhar a mesma opção sexual, começava discretamente a dividir com ela seu hidratante corporal de morango com chantilly;
assim, seu gato rajado assustou-se e fugiu com uma gata altiva, mais vira-lata ainda, que evidentemente a desprezava. e, é claro que o chuveiro havia queimado - assim como o jantar, e uma porção de cartinhas mal-sentidas de uns amores meio covardes.
aí tinha o emprego, que se não era demissão, era demitida. e o síndico, que se não era tarado, era estrábico.
e havia o pedreiro, aquele gostoso.
e o carinha da biblioteca, que devia ser virgem até de mão na bunda.
- querida, me empresta aquele s...
- nem vem, bicha.
e acendeu o cigarro do amparo e do tédio, olhando o tal pedreirinho da janela e batendo distraidamente as cinzas, que caíam despreocupadas nos cabelos desarrumados de um magrelo qualquer que passava por ali.