viadinho

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Zezinho queria um emprego, mas não queria ser cabeleireiro, só queria cortar o cabelo
Zezinho queria correr com os lobos, mas não tinha uma boceta
Então o Zezinho deixou a barba crescer pra ir ao mercado,e comprar uma margarina Qualy
mas como sua família não era igual à do outdoor,
Zezinho usou a margarina pra dar o cu.

As sutilezas da opressão

terça-feira, 16 de outubro de 2012

I

- o que você acha disso?
(o que eu acho disso? eu acho isso mesquinho, desimportante. acho que você foi egoísta o suficiente pra não perceber uma gotícula do que acontecia além do seu suor, acho que no mínimo você deveria encostar-se na parede do banheiro durante o banho e refletir sobre o quanto suas divagações rodam em círculos narcísicos e gosmentos, e procurar na sujeira do ralo alguma saída da situação.por outro lado, se te disser isso, você provavelmente me ameaçaria de alguma maneira que me faria sentir uma culpa terrível pelos próximos meses, e verteria todo o seu piche pra cima de mim, tornando o problema, além de meu também, insolucionável. mesmo conseguindo retirá-lo, ainda assim não seria capaz de te fazer lidar com a possibilidade de vocês mesma ter engendrado toda essa situação deplorável.)
- eu não sei, é difícil me pôr em seu lugar.
- eu não estou pedindo isso. só quero uma opinião. é tão difícil assim?!

leva, setembro

sábado, 1 de setembro de 2012

 

(me são inevitáveis as metonímias, por mais que o desejo seja de texto corrido, científico, enquadrado numa angústia com nome e razão - perdão, meu Pai, eu fugi da regra e não consigo manifestar meu desassossego sem correr por fora dela.)

o que esteve à-gosto do peso amorfo de nossas vidas, estacas fincadas numa busca inventada por nós mesmos.
caí na ação, reação automática; perdi as contas do meu terço, e levei nos bolsos o chumbo de dias curtos demais: eu não queria correr assim. agosto enchorrou meus pensamentos.
eu-plataforma-vibrátil, eu conectada a milhões de fios eletrocutáveis, eu ando sentindo demais o que vejo de não-respeitável (lê-se: do precoceito, da intolerância, daquilo que invade e estupra a ilha alheia) e a bile me vem à garganta.

evita a alegria,
vigia o sofrimento
sem culpa não há tormentos

qual a nudez que queremos exibir, ao final do inverno?

(porque burguês se dá ao direito de ser místico,
desde que escolha o mês.)

Do que dói, ou – Ora, Dr. Jekyll!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

 

As bifurcações doem. Túnel estreito e espinhoso, por onde nos esgueiramos ofegantes, procurando no final não o ouro, mas sim um vale encantado. Só pude encontrar desvios, escolhas, invariabilidade apenas de desencontro com antigos vínculos já pontiagudos, afundando impiedosamente na carne.

Máscara neutra, ou de couro molhado?

Pentear os cabelos com pentes de osso em frente ao espelho, ou a uma ripa de madeira? Engolir interditos, transpirar não-ditos, involuções que nos deixam com a sensação de um estupro que procura ventosas para seu gozo viscoso. Ventosas inúmeras, bifurcadas, enigmáticas, e aqui eu falo de vingança e transcendência. Em palavras polidas. E retraídas, tímidas, engolidas, cuspidas apenas algumas vogais tolas e sem linguagem. E não é sobre psicanálise, não é sobre códigos inapreensíveis. É sobre o estupor que me faz, mecânica, ranger entre dentes metálicos (im)possibilidades afetivas. É sobre plumas e tafetás escondendo a Crueldade que, de tão presa na gaiola, circula desajeitada e atrofiada por onde passa.

Finalmente, é sobre densidade.

poema manso, ou Brincar

sábado, 19 de maio de 2012

porque tem hora nessa vida,

que o que a gente mais quer é ficar quieto.

recuar nossos dicionários,

e usar as palavras mais simples,

assim, sem rima nem nada,

só pra disfarçar um pouquinho

esse desejo de calar.

 

         ***           

ficar assim, bem quietinho

embalado em mansidão,

amor de espreguiçadeira

sem caos, sem drama

sem perspectiva de fronteira

 

          ***

estourar chiclé

só pra rir da cara lambuzada

conversar no chão da sala

com a criança que já fui

sem pena, nem vergonha

e rindo à gargalhadas

porque quando a gente escreve assim,

se acha meio bobo,

perde as rimas caras, as metonímias,

as paranomásias;

mas dá de presente espaços e entrelinhas

de uma alma bem lavada.

terça-feira, 27 de março de 2012

- pelo menos os cães mijam nas árvores pra marcar seu lugar – disse ele, em escárnio – e com disso dizem a quê eles vêm. Mijo é mijo. E nós, que enfeitamos nossa escória com bolas e guirlandas murchas, que nada fazem senão insinuar nossa impotência com pequenos jorros precoces em ejaculações de calendário? Feliz Natal, querida, que eu ao menos quero ter o direito de escolher o mês do meu gozo.

- Porque abril é um mês que já começa mentiroso, não? Um brinde ao cheiro de urina seca: Feliz Natal.

- Fala, pequena!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Fala, porque é na pausa das palavras que uma alma toca a outra, entrelaçado de grãos de poeira e areia adentrando-se nos furos; fuga terrena.

Cala o delírio de fortaleza inabalável e esmorece, e desalinha, e corre que é tempo de se apequenar e entrar pelas fechaduras. Boca muda é receio de julgamento duro e divino, costuras estáticas e amargas, somos todos perecíveis e sensíveis, carentes e pequenos, fios de fagulhas que chegam até o céu e, por opção, decidem voltar. Roda sua valsa descompassada, menina, e sonha as entrelinhas que nosso alfabeto é incapaz de deitar nos papéis, porque somos todos jovens e tolos demais.

Pequenos e assustados, sem mais.