quinta-feira, 30 de junho de 2011
tu que cantas, sabiá
alivia minha dor
daqueles que passarão,
porque eu
passarinho
tu que cantas, sabiá
alivia minha dor
daqueles que passarão,
porque eu
passarinho
Postado por carol às 14:49 0 comentários
(em suspensão)
Postado por carol às 20:23 6 comentários
eu, gato escaldado, volto a mergulhar em água fria: here we go again. questão de escolha ao nascer, se arder não vou nem assoprar.
Postado por carol às 21:37 2 comentários
- fico aqui pensando, esses devaneios de madrugada… quem seria a culpa, senão filha da mentira?
e a realidade, senão sobrecargo de fantasia?
Postado por carol às 20:56 1 comentários
ele é curioso, ela, inquieta.
- fico feliz por você ter entendido minha indireta.
eles, amigos há anos.
- foi uma indireta, mesmo? – inquieta, o cigarro chegando ao final, não sabia como correr; passou o dedo pelas bordas do copo.
caminharam até a casa de Sabrina, que já entendia dos perigos do silêncio. Falava sem parar: como vai o seu namoro?
- então, até mais.
- é, até...
- amanhã.
naquela noite, Lucas havia feito um convite. caso aceitasse, caberia a Sabrina ignorar muita coisa. e fechou o portão. instantaneamente, sentiu-se embalada não pelo excesso de álcool, mas por uma brisa leve de desejo. “leve” aqui poderia ser entendido de duas maneiras: leve, no que se refere a quase peso nenhum, tampouco importância; e leve, que se aproximava e então se soltava de qualquer tentativa de entendimento – e, por isso, se afastava desse vício de ter um cérebro, pairando, por que não? foi o que a fez parar e olhar o portão fechado, roer uma unha, por que não?
mas o carro de Lucas já se afastava.
***
Sabrina chegou em sua casa. bêbada demais para dormir, e bêbada demais para pensar; distrair, fingir que não era quase nada, era o que restava. ocasionalmente, o mundo das relações virtualmente estabelecidas, triviais, descomedidas, frígidas, se recusava a funcionar. Sabrina, a rede está fora do ar!
e Sabrina não conseguiu se distrair: “por quê não”?
- alo? Lucas... saideira? na minha casa.
nessa mesma noite, Sabrina aceitou, através de outro convite, o convite feito por Lucas – e agora também se responsabilizava pela lua cheia. então, Lucas voltou: em um outro lugar, através de um outro convite – e de outra troca de olhares. reformula-se: Lucas chegou.
em um beijo, milhares de anos de convenções, determinações e, principalmente, a sentença “tem que ser assim” se dissolveram. a leveza não tem-que nada; a leveza é, corre em sintonia, ignora verbos e metonímias. não há forma, nem fórmula; só os dentes apertando um lábio.
- a gente se devia isso há muito tempo, né?
dia seguinte, ela inquieta, ele, quieto. Os dois, com as duas mãos cheias de amores. eles, inquietos. e ele de saída para encontrar um deles, ela, acusando-o por roubar seu lugar ao lado de um dos seus. antes que saísse, Sabrina segredou em um guardanapo de papel, sem que Lucas pudesse ver: “ontem, quase de manhã, acordei no meio dos meus travesseiros. não fica assim, achando que foi por álcool e eu já me esqueci... eu abracei um deles, e adormeci sorrindo. “
(e, para ler, uma coisa assim simples, gostosa, divertida… cardigans, talvez…)
Postado por carol às 16:24 2 comentários
Só o acaso pode nos parecer uma mensagem. Aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e se repete cotidianamente é coisa muda apenas. Somente o acaso tem voz. Tenta-se ler no acaso como as ciganas lêem no fundo de uma xícara os desenhos deixados pela borra do café. (M. Kundera)
quê quer o acaso, violento, quando nos leva para a direção da qual fugimos? foice em punho, corto, arranco, mas sempre há uma raiz que se esconde e cresce forte e desafiadora, se enrola pelos meus pés, faz um laço na garganta; me deixa ver, me deixa ver, e as folhas, palmeiras, me tapam a visão, raio de luz ofuscando qualquer sentido, que, do mais, só é sentido. e só. ou o pó?, um espirro virulento, o estardalhaço desesperado a fim de negar a sina com afinco (cínico)? corre em desenfreio, a força da lua faz a maré voltar, alta, e nós não somos sem o pó que se evola em um grão de areia. dupla de seis em cada esquina, o relógio corre em círculos, lua cheia, o tempo gira, gira, um seis em cada esquina.
Postado por carol às 12:45 0 comentários
- Dá um descanso – ela me disse. Abre bem as cortinas do seu quarto, porque o sol voltou mais forte e a folhagem tá nova. Eu sei que você ama jabuticabas, mas é impossível encontra-las nessa época do ano – quer dizer, você até vai achar, mas sabe como serão, né, pequenininhas e azedas, você já não torceu o nariz demais?
Fico aqui pensando em crianças que estão deixando de engatinhar, quando a mãe só faz pôr os objetos que quebram mais no alto, do mais, assistem o tombo com um sorriso divertido: - só dá certo desse jeito, querido. E de quando mergulhei até o fundo da piscina pela primeira vez, pressão nos ouvidos, não dá pra ficar aqui por muito tempo. Coisas assim, porres necessários; a gente não entende a ressaca de ninguém até acordar tremendo, bile afora, vou morrer em doze horas, no máximo. E, por deus, como vale a pena. Porque fé a gente só tem depois de desacreditar de tudo e achar que é isso aí mesmo, a terra vai comer seus olhos. Hoje, meus olhos são de terra. Fértil, do entendimento de que é preciso estar sozinho pra entender que somos todos uma coisa só. A individualidade de cada grão da Farinha do mesmo saco, tem riqueza maior que essa?
Precisei me acovardar, ganhar olheiras, rugas e pés-de-galinha, gastrite e enxaqueca, só faltou a artrite, me fazer de velha anciã, pra ver com olhos de velha anciã o quão ridiculamente nova eu ainda sou, não é hora de aprender crochê e sentar na poltrona revendo a vida toda até a morte chegar. Minha pele estica, meu coração vomita e minhas ideias fervem a fogo alto; a gente usa gírias pra falar de investimento libidinal, tá ligado? Eu tô ligada, dando choque, pés na terra, plantei mais uma árvore depois de ler mais um livro; o check-up fica pro ano que vem, hoje a gente desafia em tom de onipotência, saúde não tem muito a ver com boa alimentação. Porque a gente come muita coisa além do que vai pro nosso estômago, e não tem doce de leite com pimentão, namoradinho, pipoca doce nem heroína que preenche a fome de estar vivo; fico aqui pensando em casmurros que se acham traídos, quando tudo o que fazem é trair a si mesmos, afastando qualquer Capitu de suas vistas amargas.
E hoje eu te digo: Fica tranquila, tá? Meus olhos estão inchados, meu dedos, amarelos, mas tudo o que eu disse veio dos nós que eu tiro da minha garganta. Meu coração também é italiano, é grande e forte como o seu, e também tem o resto do mundo, porque eu já entendi que sou humana, que acho bonito estar sabendo que sou humana, mortal e limitada. Então, só me faz mais um daqueles banhos de alecrim e arruda, porque, antes de mais nada, eu sou bisneta, neta e filha de amazona. Todo va a estar bien.
Postado por carol às 12:44 4 comentários