quarta-feira, 17 de abril de 2013

 

todos já sabemos minimamente: estamos alienados, formatados, arruinados. eu-que-na-ruína-nado... mas um peixe nunca morre afogado.
no fundo dos corredores de corais, uma voz cínica boceja: -salve mundo metal!, à direita, o absurdo do senado; à esquerda, o escândalo da monocultura; corredor dos fundos, a relação entre a monogamia e a monocultura diante da heteronormatividade na contemporaneidade, em tecnologia 3-D; o ingresso é qualquer livro com a o adjetivo 'líquido' no nome da capa, afinal estamos num aquário, sejam rápidos, nosso aquário se autodestruirá em 24 horas! aguardem novidades após nossa próxima regeneração!

domingo, 30 de dezembro de 2012

"(...) Porque eu gosto do caos. Porque isso significa o desquite da realidade, da qual tenho pânico. Porque a vida fora da arte fica  insuportável. E é minha única chance de não ir para o hospício.”
Oswaldo Montenegro

 

essa noite sonhei que o Oswaldo Montenegro faria um show no ACAMPsi; enquanto ele se familiarizava com o local, havia muitos cânticos da Umbanda, e o que mais me chamou atenção foi o canto à Ogum, o orixá guerreiro. Após um tempo, o Oswaldo voltou cambaleante e sujo, como se tivesse tido um surto. Alguns se lamentaram, e um de nós disse algo parecido com "a arte dele precisa disso". Em seguida, uma conhecida disse à ele "você deve ter sofrido muito quando criança, né?" e eu a cutuquei, dizendo que não precisávamos desorganizá-lo agora.
fiquem à vontade para interpretá-lo como queiram, mas esse sonho foi minha retrospectiva 2012. a força, a arte, o cuidado, a coragem, a loucura, a sabedoria. palavras-chave, eu preciso de força e coragem, beirar à loucura, para defender a arte e o cuidado com o outro com sabedoria. em resumo, este ano me deixou uma mensagem de humildade, calma e esperança.acho que estas palavras se aproximam da concepção que tenho de Deus.
após incontáveis confrontos com copos e espelhos, copos espelhados em que procurava força quando já quase não acreditava mais em nada, descobri neste calor quente o quanto ainda há de ser aprendido por todos, em sua maioria crianças mesquinhas e petulantes. agradeço à Deus, então, que meus copos tenham sido sempre partilhados por pessoas maravilhosas, sejam estes copos simbólicos ou não - teria sido muito mais doloroso sem vocês.
hoje, no início de uma nova era e de uma carreira, pergunto o que ontem Nietzsche,  e que hoje uma grande mestre e amiga diz: "quanto de verdade você aguenta?"
Um sincero e choroso abraço nos amigos bêbados, idealistas, artistas, rabugentistas, culinaristas, todos grandes e bonitos... é sempre um prazer!

viadinho

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Zezinho queria um emprego, mas não queria ser cabeleireiro, só queria cortar o cabelo
Zezinho queria correr com os lobos, mas não tinha uma boceta
Então o Zezinho deixou a barba crescer pra ir ao mercado,e comprar uma margarina Qualy
mas como sua família não era igual à do outdoor,
Zezinho usou a margarina pra dar o cu.

As sutilezas da opressão

terça-feira, 16 de outubro de 2012

I

- o que você acha disso?
(o que eu acho disso? eu acho isso mesquinho, desimportante. acho que você foi egoísta o suficiente pra não perceber uma gotícula do que acontecia além do seu suor, acho que no mínimo você deveria encostar-se na parede do banheiro durante o banho e refletir sobre o quanto suas divagações rodam em círculos narcísicos e gosmentos, e procurar na sujeira do ralo alguma saída da situação.por outro lado, se te disser isso, você provavelmente me ameaçaria de alguma maneira que me faria sentir uma culpa terrível pelos próximos meses, e verteria todo o seu piche pra cima de mim, tornando o problema, além de meu também, insolucionável. mesmo conseguindo retirá-lo, ainda assim não seria capaz de te fazer lidar com a possibilidade de vocês mesma ter engendrado toda essa situação deplorável.)
- eu não sei, é difícil me pôr em seu lugar.
- eu não estou pedindo isso. só quero uma opinião. é tão difícil assim?!

leva, setembro

sábado, 1 de setembro de 2012

 

(me são inevitáveis as metonímias, por mais que o desejo seja de texto corrido, científico, enquadrado numa angústia com nome e razão - perdão, meu Pai, eu fugi da regra e não consigo manifestar meu desassossego sem correr por fora dela.)

o que esteve à-gosto do peso amorfo de nossas vidas, estacas fincadas numa busca inventada por nós mesmos.
caí na ação, reação automática; perdi as contas do meu terço, e levei nos bolsos o chumbo de dias curtos demais: eu não queria correr assim. agosto enchorrou meus pensamentos.
eu-plataforma-vibrátil, eu conectada a milhões de fios eletrocutáveis, eu ando sentindo demais o que vejo de não-respeitável (lê-se: do precoceito, da intolerância, daquilo que invade e estupra a ilha alheia) e a bile me vem à garganta.

evita a alegria,
vigia o sofrimento
sem culpa não há tormentos

qual a nudez que queremos exibir, ao final do inverno?

(porque burguês se dá ao direito de ser místico,
desde que escolha o mês.)

Do que dói, ou – Ora, Dr. Jekyll!

quarta-feira, 13 de junho de 2012

 

As bifurcações doem. Túnel estreito e espinhoso, por onde nos esgueiramos ofegantes, procurando no final não o ouro, mas sim um vale encantado. Só pude encontrar desvios, escolhas, invariabilidade apenas de desencontro com antigos vínculos já pontiagudos, afundando impiedosamente na carne.

Máscara neutra, ou de couro molhado?

Pentear os cabelos com pentes de osso em frente ao espelho, ou a uma ripa de madeira? Engolir interditos, transpirar não-ditos, involuções que nos deixam com a sensação de um estupro que procura ventosas para seu gozo viscoso. Ventosas inúmeras, bifurcadas, enigmáticas, e aqui eu falo de vingança e transcendência. Em palavras polidas. E retraídas, tímidas, engolidas, cuspidas apenas algumas vogais tolas e sem linguagem. E não é sobre psicanálise, não é sobre códigos inapreensíveis. É sobre o estupor que me faz, mecânica, ranger entre dentes metálicos (im)possibilidades afetivas. É sobre plumas e tafetás escondendo a Crueldade que, de tão presa na gaiola, circula desajeitada e atrofiada por onde passa.

Finalmente, é sobre densidade.

poema manso, ou Brincar

sábado, 19 de maio de 2012

porque tem hora nessa vida,

que o que a gente mais quer é ficar quieto.

recuar nossos dicionários,

e usar as palavras mais simples,

assim, sem rima nem nada,

só pra disfarçar um pouquinho

esse desejo de calar.

 

         ***           

ficar assim, bem quietinho

embalado em mansidão,

amor de espreguiçadeira

sem caos, sem drama

sem perspectiva de fronteira

 

          ***

estourar chiclé

só pra rir da cara lambuzada

conversar no chão da sala

com a criança que já fui

sem pena, nem vergonha

e rindo à gargalhadas

porque quando a gente escreve assim,

se acha meio bobo,

perde as rimas caras, as metonímias,

as paranomásias;

mas dá de presente espaços e entrelinhas

de uma alma bem lavada.