aquela sensação de…

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Sobressalto, cada passo dado com descuido é a explosão de uma cabeça minada.

Saudade, de quando era levada no colo e não pisava em nada.

Ciúme, de pipas, balões, algodão-doce, pipoca, sabiá

A beleza de não pesar...

e sem pesar,

não pisar.

sobre a toca da raposa

sábado, 29 de outubro de 2011

Longe da turbulência cotidiana, o estupor de uma noite abafada sentencia: restos da lembrança de um janeiro sem chuvas, ranço amanteigado de lágrimas que inflavam-me impiedosamente os rins. Acabrunha-se agora, tímido, o cinismo de novembro: a despedida da primavera, flores murchas e rancorosas que há meses teimam seu lugar, invejosas do suco que escorre dos pêssegos que passeiam pelas bocas febris, habitadas pelo insulto e pelo escárnio.

- Dr. Jekyll – chamo em desafio frente ao espelho – qual era a metáfora do monstro?

Exercício de escárnio, escolho novas correntes, tecidas delicadamente de rendas e tafetá, acolchoadas em meus pulsos inquietos e descompassados – cativos, expressão máxima da liberdade de aprisionar-se pelo preço da incerteza oracular. Corrida com os seios e o sexo expostos, extermínio da espera: escusa-me pai, mas o leite secou e não há lugar algum para voltar.

domingo, 16 de outubro de 2011

quê se escreve quando as palavras recuam em respeito à sinestesia de uma 

onda colorida, cores quentes e pacíficas

(oposição à fúria cotidiana,)

e emudecem,

e brotam nos olhos,

no aperto dos pulsos,

...o pertencer às paredes do mundo,

lesmas no muro;

aceitar em gargalhada

a tradição do inexplicável,

verter em lágrimas doces

sorver em paladar humilde,

o que os humanos fazem de melhor: .

.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

proposta de correr em fluxo, deparamo-nos com as pedras na corredeira.

curiosos demais para apenas pisá-las,

cheiramo-las,

lambemo-las,

monas,

musgo crescente nas entranhas

veneno letal,

pecado científico.

mais uma sobre doces industriais

sábado, 13 de agosto de 2011

- Laura, eu quero que você entenda o que eu digo, literalmente, quando falo de bizarrice: tenta, assim como você separa feijão, separar a coisa do que falam da coisa, e pense o quão bizarro é alguém enfiar o dedo no seu cu, lamber, gemer, eu-mau-hálito-de-manhã, eu-criança-com-vinte-e-poucos, eu que sei seu prato, animal, música, escritor, cerveja favoritos, medo-desejo secretos e, noutro dia, depois de decidir não mais te dizer e fazer essas coisas, desviar do seu caminho assim, com se a afronta olho-no-olho fosse o julgamento do limbo. É quase a mesma coisa que dar de cara com seu terapeuta no supermercado, e ficar de cócoras na prateleira mais baixa, examinando demoradamente sei lá, alcaparras, talvez, coisas que você nunca vai ter grana pra comprar, só pra não ter que cumprimenta-lo depois de fazer birra no seu consultório, chorando que não é justo, não é justo? Qual é a diferença disso tudo e de uma criança assustada, frente o motorzinho do dentista, pela primeira vez? Dá pra dar significado pra uma loucura dessas, dá pra fazer uma loucura dessas, se não tivéssemos nos tratando como esses doces baratinhos de abóbora, em formato de – olha que irônico – coração?

domingo, 24 de julho de 2011

- calúnia, você já procurou o significado etimológico de calúnia? parece latim, um uivo latino na segunda sílaba, bem representado. certas palavrinhas eletrizam, né? chegam na nossa cabeça, assim, de supresa, sem tocar a campainha, e brincam de roda. daí brigam, saltam umas sobre as outras, trepam. uma perde o sentido na outra, que quer ter vários, briga de ego, você já tentou pensar no tamanho do seu, assim, mensurado? medido, fechado, vedado, quantidade máxima de palavrinhas, inhas, que te azucrinam e te perturbam mais que a sensação de ter casquinhas de pipoca na garganta. imagine, passar a vida tentando tossi-las, sem sucesso? aí você pede pro seu, digamos, melhor amigo - parênteses, melhor amigo, melhor amigo, olha de novo a ideia de mensuração - abrir sua boca o máximo possível, empurrando seus dentes com a mão, e aí olhar lá no fundo, como aqueles domadores de leão: "não tem nada". dá vontade de engoli-lo, "agora tem". nem precisa chegar no fundo pra saber que se deseja, mais hoje do que ontem, ter alguma coisa, ser sujeito tratável, melhoral, como a aspirina. recauchutável, apaziguável. tá difícil, né? ah, como tá difícil! e eu só queria entender, racionalmente, essa necessidade idiota que temos de agir com a razão, você en-ten-de que contradição ridícula? razão deve vir de raso, não é, por favor, concorde comigo, você tem outra palavra pra isso senão fenômeno-contemporâneo?
-amor.

Contra a corrente

terça-feira, 12 de julho de 2011

para carol toffanelli

Par de brincos na cabeceira, ingressos de cinema, cinzeiro, garrafa. Despertador agudo, palpitante insistência.
Como toda criança que sonha, não quer acordar. Não antes de perder o nariz em terras fantásticas. Andar de mobilete em ruas bonitas. Farrear nas vias douradas, coloridas. Lambretar por aí.
Beijar, delicado e lascivo as pernas da Primavera. Depois, morder com virilidade a nudez do Outono. Que Sono!
Não Acorda. Fica assim, de bruços e quente, olhos fechados. Recusa a violência: escolhe o não ser.
Perpetua o amor fanático nas terras fantásticas. Visita teu amor arqueolólico. Contempla o asfalto rachado, a espera da última flor.
Toma um trago se preciso. Neon do bom, noite de luar.
Dança com os espectros em frente ao espelho, com as faces avermelhadas, aveludadas. Jovem Dorian corrompido, agora. Flutuante em preguiçosa malícia.
Depois, chora consigo baixinho que é pra ninguém ouvir!

                                                                                          Por Florence E. Manoel