quarta-feira, 3 de setembro de 2014

- é engraçada a forma como jogamos a cabeça pra trás quando não queremos admitir um choro, como se engolir-as-lágrimas fosse um feito dos olhos, e não da garganta. e talvez seja isso mesmo: os olhos querendo des-ver o que a garganta já gritou, como se estivéssemos voltando atrás, olhos d'água espelhando uma realidade já lixada pela secura de palavras repetidas, repetidas...

Luis

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

   Luis, irmão do Zezinho - que era gay -, era operador de empilhadeira. Luis, com uma mão, tentava abrir um pacote de biscoitos empilhados enquanto, com a outra, segurava a barra de ferro do ônibus lotado. Mas Luis não conseguia, roía as unhas desde criança, e assim o plástico não cedia. Roía de medo, de ansiedade, de tédio. Roía quando estava uma pilha. Abriu. Um senhor, pele escura e marcada, chapéu surrado pra proteger um raio que possa vir a cair em sua cabeça, olhou para os biscoitos. Oferece, Luis!
   Oferece, você que tem vinte e poucos anos de olhos azuis e gentis, que deixou os cabelos encaracolados crescerem só um pouquinho, porque a família reclamou e o trabalho olhou; oferece com a mão direita, que é a que você leva uma aliança grossa de quem ama sua namorada, de quem vai casar assim que der entrada na casinha. Você que deixa ela trabalhar, que tem barriguinha de equilibrar os sobrinhos em pé, de quem  almoça na casa da vó aos domingos e pede a benção.
    O senhor aceita, agradece e comenta que não almoçou. Missão cumprida, Luis, você não quis ser coroinha, mas jamais deixou de ser um bom cristão. Toma a cervejinha só aos sábados com o sogro, porque ele insiste. Porque ela gosta de vê-los conversando. Luis fala das empilhadeiras, porque não sabe nada de futebol. Luis olhava para a estrada, enquanto colocava o último biscoito na boca, enquanto imaginava a casinha e as fotos do casório. Ao engolir, sentiu ânsia. Luis engolira ar, viu o lobo das estórias esvaziar os móveis da casinha; teve o ímpeto de abraça-lo e pedir socorro. Um baque forte, um clarão, e Luis vomitou. Reconheceram-no pelo crachá que carregava no peito, agora transpassado por uma barra de ferro. Bem a tempo, Luis! 

ao deus que for...

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

o pudor, correndo séculos a fio sobre corpos de incertezas, abafado quente, transparecido em um semblante frio e apático, gastrite ardente corroendo ovários doentes. censura, silêncio, lençol luz apagada, cócegas vestidas de inocência.
o medo da vulva, do calor de pernas que se encostam distraidamente, auto-boicote. renúncia do tato, febre fria, dor.
espia rápido por detrás da venda de cetim vermelho, explode em desassossego, cruza as pernas, aperta o sexo, a umidade da roupa denuncia. desconhecer o próprio corpo, vetar desejo na compulsão alimentar, fechar os ouvidos para os segredos da pele, até quando o rubor? até quando o pênis de uma feiúra repulsiva, o clitóris, amorfo, e o cu, palavrão? direito à tpm, sim, à masturbação, não. quê querem, senão gozar lamúrias?
suor, saliva e sêmen, liquidos, fluxos quentes e humanos - talvez seja aí onde reside a causa: negar o que é demasiado humano. (postado originalmente em junho de 2011)

domingo, 7 de julho de 2013

dia desses, comecei a ouvir um zunido insistente no meu ouvido e pensei que fosse a loucura chegando. comecei a procurar abelhas, moscas pela sala e não encontrei nada. também não era definitivamente a construção ao lado, então só poderia estar em mim. comecei a procurar as moscas e as abelhas no meu cabelo, e já tinha quase certeza de que aquela cena era a loucura que já havia chegado. então eu começaria assim, pela alucinação auditiva em um dia de semana. sem alucinógenos, desilusões ou algum trauma fatal, a minha loucura chegaria como uma visita inconveniente, um carteiro, uma tempestade de verão. sentei reta no sofá, e comecei a esperar pela primeira alucinação, por revelações, profecias, arranjos inteiros da mais pura música erudita, monstros com a voz dos meus familiares, o jim morrison. mas nada, nem formigamento. aí o zunido parou, e depois voltou. e depois, e depois, e depois e eu procurava incessantemente por insetos na minha cabeça, na minha roupa. aí eu comecei a pensar que aquele papo todo da minha mãe dizendo que eu era uma criança meio estranha tava fazendo sentido, de que a minha psicose era coisa de tempo. quando já estava me sentindo meio no direito de andar procurando insetos nos cabelos e falando o que eu quiser, senti um arrepio no pescoço, e era uma daquelas abelhinhas que grudam e fazem barulho. levei minha psicose latente pra janela, num misto de desapontamento e de alívio por ser só mais uma neurótica, pensando que, caso ficasse louca um dia, começaria por delírios de grandeza e de petulância.

domingo, 28 de abril de 2013

-sentada na patente, olhei para o ralo e notei que vários fios dos meus cabelos se agarravam pela sua tampa. "que nojo, será que é falta de vitamina, será que é sinal de preocupação, ser adulto é começar a perder uma das primeiras coisas que cresceram em você, como uma metáfora da inocência?"
mas, talvez seja apenas o topo da minha cabeça tomando a iniciativa de começar uma viagem por túneis escuros e esparsos.

redação

quarta-feira, 17 de abril de 2013

 

joãozinho era um menino diferente, sempre gostou de contar números e histórias, aí o marcão foi lá e disse você é um mané, seu cedê éfe, aí todo mundo riu porque tinha medo de apanhar se não achava graça, aí joãozinho achou que ser legal e ter amigos era passar lanche e lição de matemática todo dia, daí passava o intervalo na sala adiantando lição pra passar pros amigos enquanto todo mundo jogava bola.
um dia, não teve lição aí o joãozinho foi jogar bola mas só podia jogar goleiro, e o marcão que era bem forte deu com a bola de propósito bem na cara dele, que entortou o nariz. aí deve ser por isso que agora o joãozinho só usa o cabelo todo puxado na cara de lado, meio que pra esconder que ele só podia ser goleiro e fazer lição na hora do intervalo, acho que o joãozinho já nasceu meio assim, de lado. eu queria ser amigo dele, mas eu sento na frente.

 

todos já sabemos minimamente: estamos alienados, formatados, arruinados. eu-que-na-ruína-nado... mas um peixe nunca morre afogado.
no fundo dos corredores de corais, uma voz cínica boceja: -salve mundo metal!, à direita, o absurdo do senado; à esquerda, o escândalo da monocultura; corredor dos fundos, a relação entre a monogamia e a monocultura diante da heteronormatividade na contemporaneidade, em tecnologia 3-D; o ingresso é qualquer livro com a o adjetivo 'líquido' no nome da capa, afinal estamos num aquário, sejam rápidos, nosso aquário se autodestruirá em 24 horas! aguardem novidades após nossa próxima regeneração!